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DICA DE LIVRO

"A QUEDA" (1956)
Autor: Albert Camus





Falar com base em si pode ser uma armadilha. Geralmente, cai-se na auto-indulgência, na falsa modéstia ou no egocentrismo descarado. Para o "juiz-penitente", narrador-personagem do livro "A Queda", expôr sua alma na bandeja é, no entanto, uma forma de se flagelar pelas dores do mundo, e não um mero exercício de vaidade.

Aqui, ele mostra nossa indiferença perante os outros, por exemplo:

"(...) ouvi falar de um homem cujo amigo tinha sido preso e que todas as noites se deitava no chão do seu quarto para não gozar de um conforto do qual havia sido privado aquele que ele amava. Quem, meu caro senhor, quem se deitará no chão por nós?" 





Quem terá tal atitude? Quem será o primeiro altruísta a quem atirarão a primeira pedra? Essa inquietação também resvala no seu amor-próprio (ou, na falta dele). Quem sente mais, quem enxerga mais e quem entende mais, acaba por ser um solitário, um pária a perambular por entre zumbis.

E, é assim que o "juiz-penitente" vive. Antes, um jovem e bem-sucedido advogado, ele só pensava em extrair o máximo de prazer da vida. No seu imenso ego, só enxergava seus interesses, e, não à toa, sempre se vangloriava de possuir uma fraca memória. Pra quê se lembrar do passado se há um presente a ser degustado?!

Só que o tempo passa... E, algo de estranho lhe acontece. Ele já não consegue sentir tanto prazer pelas coisas que faz, e até os rasgados elogios que outrora ele adorava, começaram a lhe incomodar. Para ele, e bajulação se torna repulsiva.

"(...) não acredite nos seus amigos quando lhe pedirem que seja sincero com eles. Só anseiam que alguém os mantenha no bom conceito que fazem de si próprios, ao lhes fornecer uma certeza suplementar, que extrairão da sua promessa de sinceridade. Como poderia a sinceridade ser uma condição da amizade? O gosto pela verdade a qualquer preço é uma paixão que nada poupa e que a nada resiste. É um vício, às vezes, um conforto, ou um egoísmo." 





Começa a se exilar do mundo. "Ilumina" seus pesamentos sobre o mundo. Começa a entender certas convenções sociais. Encontra mais respostas do que gostaria. E, então, no decorrer do processo, castiga-se e critica-se com paixão, ardor e até ódio.

Sentir as dores ao seu redor se faz necessário em sua vida agora. Mas, ele não pretende cair sozinho. Precisa compartilhar a sua "cruz". Por isso, busca extirpar toda a (falsa) inocência que encontra pelo caminho.

"A Queda" é parente próximo de outro excepcional livro existencialista: "Notas do Subterrâneo", de Dostoiévski. Tanto o escritor russo quanto Camus foram seres bastante preocupados com a humanidade, e, cujas vidas particulares atribuladas só contribuíram para uma visão mais sofrida a respeito da condição das pessoas.




Durante a concepção desta obra, é bom lembrar, Camus estava sozinho e desiludido. Passava por sérias crises após as pesadas críticas ao seu livro anterior, "O Homem Revoltado". Para muitos, "A Queda" é uma resposta à essas críticas. Porém, ele se mostra mais abrangente.

Indo além de suas pretensões iniciais, o autor disseca nosso sentido de responsabilidade social (e humana, por assim dizer) e questiona nossas ideologias, nossos conceitos. Numa única frase, por exemplo, ele pode se mostrar desconcertantemente crítico aos cristãos e aos ateus. Nada lhe escapa.

"Acredite-me, as religiões enganam-se a partir do momento em que pregam a moral e fulminam mandamentos. Não é necessário existir Deus para criar a culpabilidade, nem para castigar. Para isso, bastam os nossos semelhantes, ajudados por nós mesmos. O senhor fala-me do Juízo Final. Permita-me que ria disso respeitosamente. Posso esperá-lo com tranquilidade: conheci o que há de pior, que é o julgamento dos homens."





"A Queda" não foi escrito somente num momento difícil para Camus, mas também para um mundo pós- Guerra. Lê-lo nesse contexto pode fazer toda a diferença no modo como o livro será assimilado.

Mesmo com uma alta carga de melancolia, essa obra ainda consegue reservar alguma dose de esperança, e uma enorme força em acolher o humano. Nada nele soa datado. É só comprovar se algo mudou nos comportamentos sociais descritos nele.

Não se trata, pois, de um mero jogo de confissão-acusação, mas sim de um pedido muito simples:

não fiquemos alheios ao que aí está!


NOTA: 10/10.

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