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DICA DE FILME

"O Cavalo de Turin" (2011)
Diretor: Béla Tarr.


A história está repleta de casos fascinantes envolvendo pessoas públicas. O filósofo alemão Nietzsche, por exemplo, é bem conhecido por um fato inusitado ocorrido com ele, e que foi o começo de seu declínio. Enquanto passava pelas ruas de Turin, em 1889, viu um cavalo sendo açoitado pelo seu dono. Em desespero, Nietzsche se abraça com o animal, impedindo que ele continuasse a apanhar.

Como resultado, o famoso filósofo é levado para casa, e passa os seus últimos 10 anos de vida enloquecido e sem se comunicar com ninguém. A partir desses acontecimentos (narrados no início do filme), a proposta de "O Cavalo de Turin" é mostrar o que aconteceu ao cavalo a ao seu dono após isso. Aparentemente, sacal e sem importância, a estória desses outros personagens tem mais mensagens do que aparenta.



O dono do animal tem uma filha, e ambos vivem num lugar completamente afastado da cidade, numa situação de bastante penúria e sofrimento. Possuem uma rotina incessante, quase robótica, onde ele, que possui um dos braços inutilizado, levanta-se toda manhã, é vestido por ela, os dois comem, cada um, uma batata, e ele sai com sua carroça, enquanto ela faz trabalhos domésticos. Isso todos os dias.

Só que alguns aspectos começam a mudar, apesar do cotidiano desolado, em que tudo aparenta inércia e sem vida. Primeiro, o cavalo passa a não querer sair, e também não come mais. Esse fato obriga seus donos a passarem mais tempo ainda nesse ambiente, como se estivessem cada vez mais "presos" nele. Além disso, o tempo castiga o local: um vendaval faz as coisas ficarem mais escassas, como, por exemplo, a água, que ela sempre pega num velho poço.


Pai e filha não parecem ter a consciência de que estão condenados. E, sem têm, recusam-se a mudar, mesmo que suas tradições, claramente, já não façam mais sentido. O que resta para ambos é passar a maior parte do tempo em frente à janela, olhando o lugar sendo devastado dia a dia pelo vendaval. Parecem ter perdido a esperança, sendo esta substituída pela brutalidade, pela ruidesa.

O ritmo só é quebrado quando, no meio do filme, um vizinho, velho conhecido deles, chega para pedir um pouco de aguardente. Enquanto espera pela bebida, declama um longo texto, como um aviso, onde a síntese pode ser traduzida como: "Nos tiraram tudo; nós é que não percebemos". E, provavelmente, foi essa a noção sentida por Nietzsche ao ver o cavalo sendo açoitado. Mais do nunca, é a percepção ou de que Deus não existe ou de que fomos abandonados por Ele.


Mesmo tendo ouvido esse discurso, o velho dono do cavalo finge não ligar, e continua sua rotina, nunca mudando nenhum dos seus hábitos, com exceção de um ou outro detalhe. A condenação é inevitável e muito próxima, principalmente quando os recursos do local vão diminuindo. Nem forças para fugir possuem, desistindo facilmente logo na primeira tentativa.

O diretor búlgaro Béla Tarr construiu um filme de difícil digestão. A fantástica fotografia em preto e branco dá um tom ainda mais opressor e melancólico a uma situação já angustiante. A câmera tem pouquíssimos cortes, onde cada sequência é mostrada como se fosse o início e o final de um ciclo vicioso. O que muda, no decorrer dos dias, é a apenas o ângulo em que as situações são mostradas. Visões diferentes para as mesmas ações, apenas.


Some-se a isso, longas sequências sem cortes com quase nenhum diálogo. Ou seja, a comunicação também é falha, quase primal. Pai e filha só se falam o necessário, pois até as palavras podem ter um peso descomunal. As duas horas e meia da produção são, propositalmente, desconfortáveis. Mesmo assim, a câmera acompanha de perto os personagens. Somos espectadores bem próximos dessa realidade. Sentimos o vento forte e até o frio das noites. Mas não podemos fazer nada; somos espectadores inúteis.

Béla Tarr consegue, a partir dos prováveis acontecimentos do outro lado de um fato conhecido, tecer um filme poderoso, que debate a condição humana, com poucas palavras e muitas imagens arrebatadoras. "O Cavalo de Turin" é pra ser assistido, estudado e entendido aos poucos, através de minúcias, de sensações inerentes à própria vida. Verdadeiramente magistral.



NOTA: 9,5/10.

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