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DICA DE FILME

"Um Dia de Cão" (1975)
Direção: Sidney Lumet.


Anos 70. Época realmente magistral para Hollywood. Sem as fórmulas prontas de hoje em dia, que transformam a maioria dos filmes norte-americanos em "mais do mesmo", naquele período, cineastas, atores, roteiristas e tantos outros profissionais da área se preocupavam em contarem uma história que fosse instigante, inusitada e até ousada. Foi dessa safra que surgiram grandes obras, como "O Poderoso Chefão" e "Taxi Driver".

"Um Dia de Cão" também faz parte desse seleto grupo. O instigante na estória é um assalto frustrado a um banco do Brooklyn feito por pessoas claramente inexperientes (Sonny e Sal). Dessa inexperiência, surgem problemas que vão se acumulando, pois a polícia descobre que está acontecendo um roubo e cerca o local. O inusitado da hisória surge quando populares e mídia também acompanham o desenrolar dos fatos.



O assalto, a partir daí, torna-se um espetáculo. Cobertura ao vivo das TV's, uma multidão gritando palavras de odem em apoio aos assaltantes, descontrole das autoridades envolvidas. Tudo converge para um grande "show", principalmente depois que se descobre o motivo real pelo qual Sonny resolveu assaltar um banco (eis que vem a parte ousada da trama).

Interessante notar que o enredo dá margem para que coisas ridículas (e até mesmo engraçadas) aconteçam com os personagens. E, elas realmente ocorrem, mas o domínio narrativo do diretor Sidney Lumet, e as atuações seguras (principalmente, de Al Pacino e John Cazale), acabam dando um ar tragicômico à história que, mesmo com eventuais exageros, não pareceu forçado em momento nenhum.


E, tais personagens são muito bem construídos, principalmente, Sonny. Praticamente sozinho, ele mantém o controle da situação tensa em que todos se encontram, e rapidamente ganha a simpatia dos populares (e do espectador, claro). Em determinado momento, ele grita, do lado de fora do banco "Attica, Attica", enquanto a "platéia" vai ao delirio.

"Attica", é bom dizer, faz referência a um massacre ocorrido um ano antes em um presídio, o que resultou na morte de 39 pessoas. Tudo por causa do despreparo da polícia. Sonny usa esse caso para inflamar a opinião pública a seu favor, ao mesmo tempo que impede a invasão da polícia ao local do assalto, o que resultaria em graves consequências.


Tudo é minimalista no filme, da música pra marcar o momentos de tensão, aos espaços fechados (geralmente, o interior do banco) e os enquadramentos, aproximando ao máximo a câmara dos personagens, como se estes estivessem ao nosso lado, dialogando conosco. É um envolvimento narrativo bastante eficaz, visto que as mais de duas de filme passam muito rápido, mas sem a sensação de que está faltando algo.

A história, mesmo simples (e baseada num fato real), dá margem a outros debates, como a ineficiência das autoridades, o preconceito, a espetacularização da tragédia pela mídia, e por aí vai. Como mostrado em seus filmes anteriores ("Doze Homens e Uma Sentença" e "Serpico"), Lumet usa diálogos ágeis, que dão o tom da história, bem contada do início ao fim.


Por último, as atuações estão muito boas, mas os destaques são mesmo a dupla principal Al Pacino e John Cazale. Enquanto um interpreta o perturbado Sonny (algo que caiu como uma luva para os histrionismos de Pacino), o outro faz de Sal alguém mais intropectivo e sisudo; aquele tipo de pessoa da qual não sabemos o que esperar e que pode ser capaz de tudo.

"Um Dia de Cão" é realmente um dos grandes filmes daquela década (algo até relativamente fácil, se formos ver as obras-primas espalhadas ao londo dos anos 70). Mas, isso não tira os méritos dos seus realizadores, que construíram um filme verdadeiramente brilhante; e, com o perdão da repetição, instigante, inusitado e ousado.



NOTA: 9/10.

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