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DICA DE FILME

"As Bicicletas de Belleville" (2003)
Direção: Sylvain Chomet.


Desenhos animados são uma ótima oportunidade de expressar mensagens fortes de maneira mais lúdica, e até mais convincente, do que muitas produções por aí. A estética funciona como recurso à parte para poder promover uma boa estória, de forma a dar ao espectador a oportunidade de interagir e interpretar diversas nuances que, talvez, ficassem imperceptíveis em outro gênero de filme.

Digo isso porque é a estética visual um dos principais atrativos de "As Bicicletas de Belleville". A forma com que cada personagem é construída é, propositalmente, caricata e exagerada, muitas vezes, para dar enfoque a uma característica específica. Desde os ciclistas, com suas musculosas pernas, até criminosos da máfia, com sua postura sisuda e "quadrada", todos têm um visual marcante.




O filme também tem uma característica que lhe é bastante peculiar: a excentricidade. Muitas cenas beiram o surrealismo, como, por exemplo, as trigêmeas cantoras, que só se alimentam de sapos que caçam. Há, ainda, boas críticas à sociedade, como o culto às celebridades ou até à própria Belleville, que ostenta em sua entrada uma réplica da Estátua da Liberdade, só que obesa.

Porém, não se enganem. Nada disso funcionaria sem o lado humano, e isso o filme tem de sobra. Começa pela dupla de personagens principais, uma senhora e seu neto, cuja relação atravessa o tempo. Mesmo adulto, ele é bastante cuidado por ela, cujas atitudes podem beirar o absurdo, mas sempre demonstram um carinho genuíno.




Outros personagens marcantes são as trigêmeas cantoras, que, já em idade avançada, vivem com simplicidade e alegria. Também serão importantes na trama para ajudarem a resgatar o neto da senhora, raptado pela Máfia e levado para Belleville. Cabe destacar também Bruno, o cachorro dessa senhora, muito mais "humano" que a maioria das pessoas que aparecem no filme.

No geral, a forma como o diretor e roteirista Sylvain Chomet trata cada personagem é muito singela, com bastante cuidado para nenhum deles ser erroneamente julgado. A estória, aparentemente simples, esconde uma gama de sentimentos honestos e ácidas críticas sociais. E, tudo é mesclado de maneira harmônica e com identidade.



O final de "As Bicicletas de Belleville", por sinal, dialoga com o seu início. Um filme dentro de outro, onde ora somos protagonistas, ora somos espectadores. E, a vida pode, facilmente, ser comparada a um grande espetáculo, às vezes alegre, às vezes, triste, às vezes, grotesco, às vezes, reconfortante. Num ciclo de nascimento à morte.

Sem dúvida, uma produção mais complexa do que parece ser.


NOTA: 8,5/10.  

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