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DICA DE FILME

"Serpico" (1973)
Direção: Sidney Lumet.


Anos 70. Maravilhosos anos 70! Uma época em que Hollywood "cresceu" e "amadureceu", e que, ainda hoje, deixa bons legados. Um período em que a inocência foi perdida, dando lugar a uma crueza desconcertante, embalada num realismo torturante. Passada a Guerra do Vietnã, era preciso juntar os cacos, e buscar algumas razões.

É daí que surgem obras seminais, como "O Poderoso Chefão" e "Taxi Driver". Porém, e perdão pela polêmica, mas "Serpico", com ainda mais simplicidade, consegue ser, em muitos aspectos, melhor do que eles. E, bastou um enredo de fácil assimilação para isso: um policial íntegro a até a medula, lutando contra um sistema corrupto.




O diferencial aqui está no cuidado como a narrativa é contada e no respeito à inteligência ao espectador. Serpico, o tal policial íntegro (e, brilhantemente interpretado por um insano Al Pacino), mesmo ingênuo, não comete tolices. É apenas uma pessoa honesta, mas que não consegue se integrar num ambiente de trabalho imerso na corrupção.

É um estranho no ninho. Claro que, por suas convicções e atitudes corretas,ele é hostilizado pelos companheiros de farda, que veem nele um perigo para os seus negócios escusos. Essa tour de fource do personagem é maravilhosa de se assistir, mas, ao mesmo tempo, triste, pois sabemos, de antemão, que o protagonista vai sofrer sérias consequências.



O filme é uma bela exposição sobre a necessidade da ética. A integridade de Serpico desconcerta, justamente, por não ser difícil de praticar. Desde de se meter na resolução de crimes que não são de sua jurisdição, até "entregar" algumas apreensões aos seus companheiros, ele demonstra um ótimo caráter, porém, cada vez mais desesperado com o funcionamento do sistema.

"Eu só queria ter um lugar para trabalhar em paz, de maneira correta", é o que diz, em determinado momento, o personagem. Sua empatia com o espectador é tremenda.  E, ele não é retratado nem de forma heroica, nem de m,aneira medíocre. Ele apenas é um homem honrado, uma pessoa comum, mas bastante decente. Um personagem até raro de vermos nos filmes de hoje.



Além disso, cabe ressaltar que o roteiro para o filme, baseado num livro que se inspirou em fatos reais, é perfeito do começo ao final. Não esperem grandes reviravoltas na trama, porém, tão pouco, vamos encontrar lugares-comuns, clichês ou acontecimentos sem sentido. Está tudo no lugar, onde cada fato ocorre no momento certo.

A parte técnica da produção também é outro primor. Os ambientes não são sujos artificialmente, mas cada lugar parece real e verossímil como encontramos em qualquer grande cidade. E, obviamente, as atuações são um espetáculo, em especial, a de Pacino, que está soberbo aqui (e, numa época que ele tinha acabado de fazer o clássico "O Poderoso Chefão").


"Serpico" não só define muito bem a década setentista, mas também o cinema moderno como um todo. É fácil percebermos seus ecos em "Cães de Aluguel", "Seven", e até em "Batman - O Cavaleiro das Trevas", vejam só! No entanto, por mais que essas produções tenham uma qualidade iquestionável, nenhum chegou à excelência de "Serpico".

Com uma profundidade direta, mas nem um pouco simplória, o carisma do personagem principal, uma direção coesa e sem firulas, e uma atuação memorável, a obra-prima do diretor Sidney Lumet é um alívio, no final das contas. Hollywood já teve filmes magistrais num passado não tão distante.

NOTA: 10/10.

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