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DICA DE DISCO

"Rainha dos Raios" (2014)
Artista: Alice Caymmi.


Mesmo com uma aparente variedade, é difícil uma cantora se destacar no meio musical aqui no Brasil. Há várias saídas. Temos aquelas que são declaradamente pops; dessas, não esperemos nada de muito arrojado. Existem outras que se travestem de alternativas minimalistas, como Céu, mas, que não conseguem força nem na interpretação, nem na composição. Há também um sem-número de imitadoras de Elis Regina e Cássia Éller, fazendo aquele tipo de sambinha bossa-nova pra gringo ver.

Porém, no meio de tudo isso, existe uma outra via. Nessa, encontramos cantoras pouco preocupadas com convenções. São naturalmente ousadas, inquietas. Provocadoras, digamos. Fazem questão de entregarem um trabalho que soe, minimamente, diferenciado. Dessa turma, uma das melhores é a incrível Juçara Marçal. E, lado a lado com o seu nível de inventividade, descobrimos Alice Caymmi.


O sobrenome pode denunciar algo que, talvez, já conheçamos. Mas, não. Da família, Alice herdou o bom gosto e o cuidado com a música. De resto, nos presenteia com um trabalho muito instigante. Em 2012, quando lançou seu primeiro disco, já demonstrava uma arte com sabor especial. "Rainha dos Raios", no entanto, dá um passo além, mostrando que ela tem, sim, talento.

O trabalho inicia com "Como Vês", uma canção completa. Da voz grave de Alice, passando por um instrumental rico, e uma letra esperta, já dá um pouco do alcance do que vamos ouvir aqui. Tudo no seu devido lugar, encaixado. Em seguida, uma composição de Caetano Veloso, "Homem", que provoca o universo feminino. Já, nessa segunda faixa, percebemos que o ponto-chave da qualidade do disco reside na interpretação de Alice, e no som, autenticamente alternativo, sem soar chato.


"Meu Recado", escrita por ela e Michael Sullivan, pode parecer estranha dentro do contexto do álbum. Sim, trata-se de uma balada. Mas, uma balada com dor verdadeira. Válida, justa, sincera. E, mais uma vez, que voz, hein? Só que "A Princesa", composição romântica do MC Marcinho, talvez pareça deslocada dentro do conjunto do álbum, mas a cantora fez questão de dizer:

"É muito delicioso você nascer numa família importante pra caralho dentro da música e gravar um MC Marcinho só de sacanagem."

Escorregão não ocorrido em "Meu Mundo Caiu". Porque agora não é pieguismo, não é pose; é fossa, mesmo, numa bela versão para a música de Maysa, que não ficou careta, não. Depois, mais uma da própria Alice, "Antes de Tudo", uma canção quieta, sossegada, quase flutuante. Arranjo quase etéreo, sublime. Uma beleza ímpar aos ouvidos.


A seguinte, "Sou Rebelde", é uma regravação de "Soy Rebelde", hit de 1971 da cantora Jeanette, e que foi sucesso nacional em 1978 na voz de Lilian, com letra em português feita por Paulo Coelho. O som remete à new wave dos anos 80. Pra quem lembra, é pura nostalgia. Em "Insã", a mão de Caetano retorna, agora, em parceria com Gil. O som aqui é cadenciado e primorosamente envolvente, que vai ficando viciante a cada audição. Sobre a faixa, a própria Alice comenta:

"Os deuses do candomblé têm toda uma mitologia própria que diz respeito a coisas fundamentais da gente, e Iansã é o ir de um polo a outro, o que eu acho que é a grande questão hoje em dia."

O disco se encerra com "Jasper", mais uma composição do bom e (nada) velho Caê, junto com Arto Linsay e Peter Shere. Cantada inglês por uma sóbria Alice, os barulhos eletrônicos lembram os bons momentos de Björk, por exemplo. Não chega a ser impactante, mas foi uma maneira relaxante de terminar um ótimo disco como esse.


Sim, caso procuremos além do que os nossos ouvidos calejados de tanta FM escutam, encontraremos gratas surpresas. E, assim como Juçara Marçal, Alice Caymmi tem a seu favor a subversão. Não se contenta com o óbvio, e, até agora, entregou a nós somente coisas interessantes. Reconfortante o prazer de certas descobertas.


NOTA: 8,5/10.

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