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Dica de Filme

"Relatos Selvagens" (2014)
Direção: Damián Szifron.


Há filmes que conseguem requentar, de forma competente, velhas e batidas fórmulas. Uma produção, por exemplo, como "Relatos Selvagens", automaticamente, remete a "Short Cuts - Cenas da Vida" e "Magnolia". Ou seja, apresentam um mosaico de personagens, cada um com uma estória particular. A diferença é que "Relatos" não é um drama, e sim, uma comédia. Porém, tem similaridades com os outros longas no quesito ironia. E, nesse sentido, o filme é ótimo.

Cada um de seus seis capítulos joga e brinca com conceitos, esteriótipos, problemas cotidianos, etc. Um dos melhores é o terceiro, ao mostrar dois homens que, brigando numa estrada por motivos banais, descobrem da pior forma as consequências de uma violência insana. E, esse mote segue praticamente em todos os outros episódios: uma crítica pesada ao nosso atual mode vida, ao status quo, mas, sempre com um sarcasmo feroz.




Até por ser um filme "dividido", ele não cansa, e é até bastante leve e engraçado de se assistir. Quando se percebem as pequenas sutilezas do roteiro, a produção fica ainda melhor. Podemos, facilmente, observar isso no quarto episódio, onde um homem comum enfrenta dilemas familiares junto com a burocracia do dia a dia, evidentemente, cada vez mais estressado. A solução final para a sua paz é impagável.

Outras partes são apenas divertidas (como a primeira) ou travadas demais (que nem a segunda). Porém, conseguem passar um recado um interessante em suas estórias. Já o quinto episódio é o mais pesado de todos, até mesmo porque tem pouco, ou nenhum, humor. Inclusive, este, de tão detalhista em suas nuances, fica a dúvida se o roteirista, realmente, presenciou uma estória semelhante (alguém da elite que comete um crime, e uma pessoa simples e pobre é acusada em seu lugar).




O filme termina de forma histriônica, ridícula, quase como uma "novela mexicana". De fato, diverte, mas, poderia ter finalizado de uma maneira mais ácida, com um verdadeiro tapa na cara do espectador. Faltou, por assim dizer, ousadia. Caso fosse um dos primeiros "relatos", seria menos morno, menos lugar comum. Obviamente, fechando o trabalho, deixou a desejar. Uma pena, pois a estória de traição de traição de um noivo em pleno casamento poderia ter rendido momentos melhores.

Como um todo, "Relatos Selvagens" é uma crítica ao ser humano. Uma crítica aos seus preconceitos, ao seu estilo de vida, à sua falta de ética e de moral, enfim. Tudo permeado por momentos cômicos, pois, numa análise mais certeira, é isso o que a vida é: uma grande comédia. E, o filme acerta em cheio ao entender isso, e fazer suas críticas através de situações patéticas do cotidiano. Em suma, seria esse a grande característica das pessoas: ser um bobo da corte.




Até pela estrutura do filme, não dá pra destacar, necessariamente, uma ou outra atuação. Todos (inclusive, Darín) estão tranquilos e à vontade em seus papeis. Nada fora do comum, mas, com bastante competência. Só que o grande mérito do longa está mesmo no roteiro (bem estruturado) e na edição (ágil e certeira). E, tudo filmado com ritmo, das estórias mais densas até aquelas mais leves e escrachadas.

"Relatos Selvagens" é, sim, muito honesto na proposta. Utiliza o absurdo de seus enredos para criticar a sociedade de uma maneira até incomum. Diverte e reflete em doses iguais. Mostra que muitas situações pelas quais passamos não passam de pura comédia, e que, com um pouco mais de ironia, poderíamos até extrair alguma lição disso (por mais inusitada e perdida que seja a vida).


Nota: 8,5/10. 

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