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Dica de Disco

"Tonight's the Night" (1975)
Artista: Neil Young.


Se não sangra, se não dói, se não é desesperador, se não é triste, não é arte. Essas afirmativas podem soar um tanto exageradas, mas, é certo que muitas excelentes obras foram concebidas na dor. Fato! Talvez porque quando nos confrontamos com desafios, tentamos alguma forma de superação, mesmo que remota. Buscamos alguma forma de alento, compensação, por aquele sofrimento que corrói a alma e dilacera o corpo. E, a arte é uma ótima válvula de escape.

Peguemos um cara como Neil Young, por exemplo. E, uma época específica: o ano de 1972. Nesse período, o cantos e compositor estava numa ascendente, afinal, seu mais recente disco, "Harvest" estava sendo um grande sucesso. Mas, paralelo a isso, um dos integrantes de sua banda, e também seu amigo, Danny Whitten, estava cada vez mais complicado no consumo de drogas. Resultado? Foi demitido para que pudesse se tratar, mas, foi encontrado morto dias depois, após uma overdose.


Em entrevista ao repórter Cameron Crowe, da Rolling Stone, Young disse: "Nós estávamos ensaiando, e ele simplesmente não se lembrava de nada (...). Tive que dizer a ele para voltar à Los Angeles. Eu amei Danny e me senti responsável (por sua overdose). Logo depois, tive que sair para essa grande turnê de enormes arenas. Eu estava muito nervoso e inseguro." 

Bom lembrar que, como se não bastasse tudo isso, Neil Young, graças a problemas internos com a sua banda, gravou um disco do qual não gostou: "Time Fades Away". E, por fim, mais de seis meses depois da morte de Whitten, o roadie Bruce Berry também morreu em consequência de uma overdose. Inclusive, ele e Whitten eram companheiros de drogas e eram vistos juntos quando estavam usando heroína.

É claro que diante de tantas desgraças, o bom e velho cancioneiro Young tinha que compor algo triste, melancólico, expondo suas frustrações, seus dissabores e sua falta de perspectiva. Pronto. "Tonight's the Night" veio à vida, e marcou a extensa obra do cantor como um dos seus melhores e mais poderosos discos.


E, quando o álbum começa, percebemos que, às vezes, realmente, a dor é o combustível para a grande arte. A faixa-título é introspectiva, serena, quase depressiva. Sua letra diz tudo:
"Bem, tarde da noite
quando as pessoas se foram
Ele costumava pegar minha guitarra
E cantar uma canção com uma voz trêmula
Que era real como o dia foi longo.quando estava usando heroína".

O disco segue maravilhoso, como em "Mellow My Mind", com seu dedilhado de gaita. Blues em estado bruto! "Roll Another Number" não deixa por menos, onde Young encarna os pretos velhos à beira do Mississipi. Quase podemos vislumbrar a paisagem pueril daquelas banda dos EUA. Mais do que uma composição relaxante, é algo que conforta o espírito, como se a nossa necessidade por paz não acabasse nunca. Até aqui, um disco irrepreensível.

Já, "Tired Eyes" tem um arranjo lindo, com vocalizações quase à capela.  Em determinado momento, Young canta em forma de discurso, passando o seu recado:
"Bem, isso não era
Para acontecer
Desssa maneira.
Mas eles queimaram seu irmão,
Você sabe,
E eles o deixaram deitado
Na entrada.
Eles o deixaram caído sem nada.
Ele tentou o seu melhor
Mas não conseguiu".



Mais uma encarnação dos espíritos vindos do Mississipi podemos ouvir na bela "Speaking' Out". Música bem composta, bem cuidada, com cada instrumento dando vida necessária a ela. Detalhe: que piano maravilhosamente minimalista e que solo de guitarra instigante! Um rock básico, mas, muito bem executado, "Walk On", vem abrilhantar ainda mais este trabalho. Quando o senhor Neil quer, sem a necessidade de suas costumeiras explosões, ele faz uma canção, maravilhosamente, minimalista.

A segunda metade do disco se inicia com "For the Turnstiles", que só precisa de um violão, uma batida seca, e algumas incursões dos backing vocals. Neil Young is God, of course! Chegamos com "Bad Fog of Loneliness", e talvez seja a "pior" canção do disco, não porque seja ruim, vejam bem, mas, pelo fato que se trata de uma composição mais simples, masi lugar-comum. Felizmente, sua duração é curta, e não chega a incomodar.

Pois, eis que surge a acústica "New Mama", e as coisas voltam aos "eixos", numa música que está perfeitamente cabível com o clima reflexivo do álbum. Bem mais pesada (em termos de som) é "Winterlong", porém, os arranjos e as linhas de voz, trazem uma paz de espírito indescritível. Com "Borrowed Tune", fazemos mais uma tour pelo Mississipi, nos sentimos como se estivéssemos lá, como nosso lar, nosso destino.


O encerramento fica a cargo de "Traces", muito bonita, é verdade, mas, assim como "Bad Fog of Loneliness", não possui nada de especial. Bem executada, só que igual a tantas outras que aqui se encontram, e que, honestamente, são melhores. Mesmo assim, não desmerece o conjunto do disco; e que belíssimo disco!

Young precisa expurgar suas dores, e dividí-las com o público resultou numa obra atemporal, de extremo bom gosto, apesar de melancólica. A arte, enfim, supera as dores, e, graças a ela, enxergamos algum futuro. E, devido a "Tonght's the Night" o bom e velho Neil Young continuou na estrada, presenteando-nos com música de qualidade.


Nota: 9,5/10.

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