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Dica de Filme

"Sangue Negro" (2007)
Direção: Paul Thomas Anderson.


Sim, Thomas Anderson é um cineasta, no mínimo, peculiar. Claro que seus filmes, em essência, não ficam atrás. Afinal, o digníssimo diretor já falou desde a indústria do cinema pornô ("Boggie Nights"), até as mazelas humanas mais obscuras ("Magnólia"), e sempre com a mesma desenvoltura e um toque bem autoral. O que esperar, então, de uma produção cujo foco é a exploração do petróleo ocorrida no Texas em meados do século passado? Muita coisa, garanto a vocês.

Pra começo de conversa, os 20 primeiros minutos do filme não possuem falas, o que, pra alguns nos dias de hoje, é um exercício de muita paciência. A força está nas imagens, mais precisamente na luta de Daniel Plainview, minerando as cavernas da região texana, passando por muitas agruras, até conseguir montar sua própria companhia de mineração. Eis que o "ouro negro" surge através de um "acidente de trabalho", e a vida dele muda.




Uma das coisas mais interessantes aqui é que não esperem encontrar um protagonista heróico. Plainview é (repleto) de falhas, não mede esforços para conseguir o que quer, sempre com muita ganância e determinação. Correto à sua maneira, mas, utilizando métodos bem pouco justificáveis. Porém, quem o rodeia não é tão diferente assim. Tanto é que ele precisa constantemente lidar com grandes empresários do ramo, que querem tomar o seu lugar no negócio.

E, é de cidade em cidade que Plainview vai oferecendo os seus "serviços", até ser procurado por um rapaz que lhe oferece uma valiosa informação: uma terra rica em petróleo pronta para ser explorada. No entanto, na pequena cidade, ele encontra mais do que esperava, desde uma população carente e necessitada, até um charlatão religioso que passa a "negociar" com Plainview, sendo que este, notadamente, não tem crença nenhuma.

É, então, que o filme mostra outra faceta: o debate religioso. As cenas em que o tal falso profeta prega na pequena igreja da cidade são de um poder de síntese arrebatador. Obviamente, fazemos menção automática a esses líderes espirituais midiáticos que tanto infestam nossa sociedade. "Sangue Negro", com base nessa premissa, vai colocando em cheque as motivações do protagonista, que parece realmente, em determinado momento, encontrar alguma paz espiritual.




Mas, o filme caminha, e vemos que, a despeito de tudo, Plainview não se dobra de jeito nenhum. Ao contrário; seu ódio pela pessoas, sua única motivação, cresce cada vez mais, e sua figura amoral e explosiva vai se tornando um enorme incômodo para aqueles que o cercam, desde o seu filho (vítima de uma explosão em um dos extratores de petróleo), aos empregados de sua companhia, sempre à mercê de um homem impulsivo e que não mede muitas das consequências de seus atos.

A produção possui cenas fascinantes. Uma delas é, sem dúvida a já citada explosão num dos extratores. Nessa sequência, a câmara de Thomas Anderson é contemplativa, ao mesmo tempo que pulsante, colocando o espectador no olho do furacão de maneira emocionante. Fora essa, as próprias imagens a céu aberto são um show à parte, com tomadas e ângulos inusitados, sempre querendo nos dizer algo, como se a posição de nossa visão nos desse um entendimento diferente da estória.

Claro, não se pode deixar de falar das atuações, todas ótimas, em especial, a de Daniel Day Lewis. Sério, que ator formidável. A transfiguração gradativa pela qual o seu personagem passa é sentida no próprio físico do ator, muitas vezes, sem grandes mudanças de feição. Um trabalho formidável. Como em outros filmes do diretor, a trilha sonora também cumpre o seu papel de ser um "personagem" a mais, passando a emoção necessária em cada cena.



Talvez, o único defeito do filme seja se alongar demais (outra característica marcante do cineasta). Às vezes, funciona (as três hortas de "Magnólia" passam voando); em outras, não. O excesso de cenas estáticas, tem hora, cansa e, eventualmente, pede um respiro mais profundo do espectador, que, pelo menos, é recompensado depois com algo verdadeiramente marcante. Mas, uma edição mais enxuta teria tornado o trabalho aqui ainda mais soberbo.

Apesar disso, "Sangue Negro" é um exemplar altamente recomendável no cinema norte-americano recente, por querer (e, conseguir) ter uma trama adulta, cheia de significados, principalmente, no tocante a algo tão delicado quanto o espiritual. Pra quem está acostumado com o cinemão hollywoodiano, provavelmente, achará a produção chata. Porém, encarando-se o "desafio", o filme oferece uma senhora aula de cinema.


Nota: 9/10.

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