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Dica de Filme

"Mistérios e Paixões" (1991)
Direção: David Cronenberg.


O senhor Cronenberg, maluco por natureza e profissão, quase sempre se mostrou um cineasta arrebatador. Mestre do desconforto, dirigiu obras seminais como "A Mosca", "Crash - Estranhos Prazeres" e "Marcas da Violência". Mas, os seus últimos filmes têm se mostrado uma verdadeira negação. O que é uma pena, pois até os seus trabalhos menos conhecidos possuem uma qualidade bem ausente em muitos diretores norte-americanos de hoje: a ousadia para chocar (mas, sem ser apelativo).

Este "Mistérios e Paixões", por exemplo, o que temos aqui é cinema com categoria. Baseado livremente num livro de outro notório insano (William S. Burroughs), intitulado "Almoço Nu", a produção começa minimalista, como qualquer outro filme de época. Estamos na década de 50, portanto, a sonoridade pontuada por jazz dá o tom. É quando conhecemos Bill Lee, que quer ser escritor, mas, ganha a vida exterminando insetos e outros formas de pragas. 




Quando Bill, aconselhado por sua esposa, começa a se drogar com inseticida, o filme se torna uma louco espiral de cenas bizarras, mas, fascinantes, que de tão poderosas, acabam passando a sensação de algo real. Um exemplo claro são os diálogos do protagonista com um enorme animal, metade barata, metade máquina de escrever! Sim, é absurdo, porém, não se enganem; as falas entre os dois são de uma coerência desconcertante.

Nos momentos sóbrios, Bill descobre que tem escrito (muito), e que são coisas belíssimas. O problema é que ele não se lembra. A única lembrança que lhe vem à mente é de que ele é um agente infiltrado para destruir um cartel de drogas. De que são feitas essas drogas, no entanto, é que mostra o nível de alucinação de Bill, enquanto ele vai afundando cada vez mais num estado paranoico, e o espectado, perdido, já não sabe o que é realidade e o que é falso no filme.




A questão é que para se assistir "Mistérios e Paixões" é preciso que haja uma imersão profunda na estória. Temos que nos "deixar levar" pela narrativa, não se importando com o que é absurdo ou, simplesmente, estranho. Mas, a paciência vale a pena, pois é depois que o recado se mostra mais claro: o roteiro quer expôr a importância, e, ao mesmo tempo, o fardo dos escritores. Eles são os únicos que podem nos dizer verdades, mas, a que custo eles conseguem isso?

Nesse sentido, as alucinação de Bill são uma necessidade; algo trivial para que ele possa exercer sua escrita de maneira plena.  O grotesco de algumas cenas é o grotesco do próprio cotidiano, que nos tira a liberdade, a criatividade e, por fim, até a vontade de viver. Como se vê, a estória é repleta de simbolismos e metáforas, o que prova que Burroughs foi genial ao utilizá-las, e Cronenberg entendeu muito bem a proposta.




Como cinema, talvez o maior defeito de "Mistérios e Paixões" seja o andamento arrastado de algumas sequência, tornando a coisa mais longa do que o necessário. Mas, tudo é compensado pela estória e seus simbolismos em si, os "orgânicos" efeitos especiais e a atuação contida, mas, eficaz, de Peter Weller (o eterno Robocop). E, claro, a própria direção é um grande trunfo, estilosa, no entanto, sem se perder numa auto-contemplação.

Sim, Cronenberg já foi capaz de realizar ótimos trabalhos no cinema. Por isso, há de se lamentar que ele venha errando a mão com tanta frequência ("Um Método Perigoso", "Cosmopolis" e "Mapa Para as Estrelas"). O que ele está precisando para se recuperar? Talvez voltar a assistir seus antigos filmes. Quem sabe não apareça alguma boa inspiração, e voltemos a nos incomodar com um filme seu? A (boa) insanidade agradece.


Nota: 9/10.

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