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Dica de Filme

"Rede de Intrigas" (1976)
Direção: Sidney Lumet.


Existem coisas esquecíveis, ou que, pelo menos, dissipam-se da nossa memória em pouco tempo. Muitos filmes atuais são assim. Sai-se do cinema, e a lembrança do que se viu vai passando como o vento. Mas, há aqueles que chamamos de atemporais, produções que passam anos e anos, e parecem ser cada vez mais contemporâneos. "Rede de Intrigas", por exemplo, completa 40 anos agora em 2016, e, pelo o que vemos presenciando na vida real, ele ainda tem muito a dizer, especificamente, sobre os grandes impérios midiáticos.

Talvez, uma palavra que o caracterize bem seja ousadia. Sem medo algum, o filme vai tecendo críticas ácidas em cima de críticas ácidas sobre os negócios da comunicação em massa, especialmente, a TV. O diálogo inicial mostra muito bem isso: vemos o âncora de telejornal Howard Beale e Max Schumacher, que trabalha na mesma emissora, falando sobre programas que poderiam ser sucesso. Bêbados, chegam a concordar que um programa com assassinatos e toda sorte de violência cairia bem nas graças do público. Isso nos lembra algo?




No entanto, Howard Beale está passando por dificuldades pessoais, entre elas, sua demissão devido aos baixos índices de audiência. É então que num acesso de fúria, bastante surtado, ele resolve fazer uma chocante declaração: que irá se matar em seu último programa, ao vivo, na frente de milhões de pessoas. Nessa hora, os bastidores da emissora viram um verdadeiro pandemônio. Já, os poderosos da comunicação vão aproveitar bem esse inusitado caso, transformando Beale num verdadeiro herói nacional televisivo, que passa a canalizar todas as raivas e frustrações dos espectadores.

O programa, simplesmente intitulado "The Howard Beale Show", vira sucesso absoluto de público, muito por conta das intervenções da produtora Diana Christensen, que possui verdadeira fixação em transformar programas de TV em grandes campeões de audiência, não importando a que preço. Há também a "ajuda" de Frank Hackett, executivo da rede que exibe o programa, e que é tão inescrupuloso e vil quanto Diana. À revelia de todos, está Max Schumacher, amigo de Beale, e que tenta ajudá-lo, percebendo que, cedo ou tarde, ele será engolido pelas corporações que o manipulam.




Não por acaso, o filme simboliza negociatas entre figurões da comunicação como se fossem tramoias da máfia, algo beirando as raias da criminalidade mesmo. Sem o menor dos escrúpulos, e com bastante frieza, vidas vão sendo "jogadas" aqui e acolá, apenas importando o fato se uma atração pode ou não dar audiência. Para não deixar margem de dúvidas, a produção ainda coloca em sua trama o envolvimento dos profissionais da emissora de TV com terroristas que filmam seus assaltos, e que se tornou um dos programas mais vistos pelo público. Afinal, as pessoas, como bem diz um dos personagens, quer sangue, não notícias.

Impressionante perceber como a mensagem de "Rede de Intrigas" continua atualíssima, e mesmo assim, trata-se de cinema dos bons. Lumet prova que, a despeito de monstros sagrados da sétima arte que se firmaram na década de 70 (Coppola e Scorsese), ele foi o que conseguiu fazer os melhores filmes desse período áureo de Hollywood, detre eles, "Serpico" e "Um Dia de Cão". Com uma mão sempre afiada para conduzir a narrativa de maneira brilhante, o cineasta não desperdiça nenhuma cena, nenhum diálogo, nada. Tudo é contado de forma tão fruída que dá vergonha alheia nesses atuais diretores, que só conseguem fazer produções "travadas" e sem ritmo.

Muito acrescenta ao conjunto o elenco, formado por nomes como Robert Duvall e Faye Dunaway, todos no auge de suas interpretações. Aliado a tudo, um roteiro enxuto, coeso, mas, desenvolvido com audácia, fazendo as críticas que tem que fazer. Chega até a ser desconcertante que uma produção de inacreditáveis 4 décadas seja mais corajosa para colocar certos dedos em feridas do que o que é feito hoje em dia, onde tudo é muito esquemático, sem emoção, ou, sequer, carisma. A atemporalidade não é pra todos, como se vê.




É provável, no entanto, que alguns enxerguem uma certa hipocrisia na mensagem passada por "Rede de Intrigas". Afinal, trata-se do cinema sendo usado para fazer uma crítica muito pesada à futilidade da TV (e, aos meios de comunicação em geral). Só que, anos depois, foi o cinema que foi perdendo sua relevância e sua capacidade de fazer o público pensar, com produções cada vez mais descartáveis e alienantes (os blockbusters), assim como a televisão foi um dia. Porém, não culpemos Lumet e cia por essa abordagem, pois o filme foi feito num tempo em que o cinema norte-americano estava, de fato, magnífico. Quando as coisas se nivelam por cima, é assim mesmo.

Sendo relevante em vários aspectos, mas, também primoroso como cinema, "Rede de Intrigas" dialoga com o s tempos atuais de uma forma até melhor do que "Todos os Homens do Presidente". Afinal de contas, nem toda história que parece grande é um "Watergate" da vida. Já, os grandes meios de comunicação continuam se assemelhando mais ao ambiente de Dom Corleone do que a um mero local que se propõe a propagar notícias. É por isso que, acima de tudo, "Rede de Intrigas" é necessário (ainda).


Nota: 9,5/10.

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