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Debate Sócio-Político

Quem Tem Medo dos Estudos de Gênero?


Em pouquíssimas horas, o novo governo de Michel Temer, após o afastamento temporário de Dilma, já mostrou a que veio: promessas de reduções de direitos trabalhistas, repressão a  movimentos sociais, extinção de ministérios importante para a inclusão social, entre outras medidas que denotam que vamos ter um belo retrocesso nos próximos dois anos. Um desses indicativos resvala na questão da educação, pois, além da tentativa de privatização do ensino público que se delimita a cada dia, outro tema polêmico vai ser tratado, provavelmente, de forma bastante conservadora por esse governo: os chamados estudos de gênero nas escolas.

Foi verdadeiramente constrangedor e preocupante, por exemplo, ver a "aprendiz" de psicóloga Marisa Lobo entregar um exemplar de um de seus livros ao atual Ministro da Saúde, Ricardo Barros, e este prometer que a "ideologia" de gênero não vai ser implantada no Brasil de jeito nenhum, pois, segundo as palavras dele, "o MEC agora é do DEM". Inclusive, este livro de Marisa Lobo é um perfeito produto da desonestidade intelectual, a começar pelo título, "Ideologia de Gênero na Educação", já que é sabido que não existe "ideologia de gênero", e sim, "estudos de gênero". Sem contar que a abordagem religiosa da obra (Marisa Lobo é cristã), naturalmente, acaba diluindo qualquer bom debate.

Vídeo do canal "Café Filosófico":


Mas, por que os estudos de gênero geram tanta celeuma? Pra começar, tudo não passa de uma questão de desinformação. Quando se fala nesse assunto, é comum ouvirmos jargões absurdos do tipo: "Querem ensinar as crianças a fazerem sexo", "Querem ensinar as crianças a serem gays", "Estamos numa ditadura gayzista", "A família tradicional será destruída", etc. Essa mesma desinformação se estende ao próprio termo, pois não existe uma "ideologia" do gênero, pois, estudos já comprovaram que, simplesmente, não se "quer" ser um determinado gênero (homem, mulher ou variantes). O que vai determinar a orientação sexual de uma pessoa é um conjunto de fatores sociais complexos. Portanto, não cabe falar em ideologia.

Outra falácia propagada pelos desonestos de sempre é que a "ideologia" de gênero seria uma doutrinação marxista às nossas crianças. Caso estudassem de fato, essa gente saberia, inclusive, que muitos estudiosos no campo do gênero fazem duras críticas ao Marxismo, a exemplo de uma das principais pensadoras do tema na atualidade, Judith Butler. E, falando em autores, muito sintomático perceber que os que são contra aos estudos de gênero só citarem Simone de Beauvoir como referência negativa, extraindo, ardilosamente, um único trecho ("Ninguém nasce mulher; torna-se mulher"), de apenas uma de suas obras ("O Segundo Sexo").

Vídeo do canal "Liberdade Para Educar":


Nota-se que está ficando cada vez mais difícil o diálogo quanto a esse tema, e, sem querer gerar preconceitos de qualquer espécie, fica claro que os que se opõem aos estudos de gênero são majoritariamente cristãos, deixando sua fé numa crença se interpor na compreensão do assunto. É a Bancada Evangélica, por exemplo, que vem tentando, a todo tempo, minar a introdução dos estudos de gênero nos currículos escolares, tendo como justificativa a gama de desinformações que citei até aqui. Utilizam o medo como arma; o medo de que os nossos filhos estarão à mercê de pedófilos, que meninas passarão a engravidar mais cedo, etc. Mas, nada dizem que a principal prerrogativas desses estudos é dar senso de igualdade entre as pessoas, combatendo formas de descriminação e preconceito.

Recentemente, no estado de Pernambuco, tivemos um (pequeno) avanço nesse sentido: a Comissão de Constituição, Legislação e Justiça da ALEPE rejeitou, por unanimidade, um projeto de Lei Ordinária que pretendia proibir qualquer debate de gênero e diversidade nas escolas do Estado. De autoria do deputado  estadual Joel da Harpa (PTN), o projeto foi arquivado. Porém, na Câmara Municipal do Recife, segue tramitando a PL 26/20216, de autoria do vereador Carlos Gueiros (PSB), que basicamente possui a mesma finalidade do projeto de Joel da Harpa: censurar qualquer debate de gênero nas escolas.

Vídeo do canal "Sopa de Letrinhas":


Ainda há um longo caminho pela frente. A "guerra" contra os estudos de gênero se mostra vil e baixa por embutir mentiras e falácias na cabeça das pessoas, evitando assim o bom debate. Mesmo assim, a militância que apoia o tema já entendeu em que terreno está pisando, e está, aos poucos, desconstruindo uma visão distorcida dos estudos de gênero. Mas, é difícil, pois, no cerne da questão, está a religião, que vem se mostrando um entrave para o diálogo. Uma árdua luta pelo conhecimento continua. E, torçamos para que a honestidade prevaleça.


Textos e obras complementares:

Livro da socióloga Heleieth Saffioti, "Gênero, patriarcado e violência", ou o seu artigo "Contribuições feministas para o estudo da violência de gênero": http://migre.me/t1BtN

Artigo da filósofa Susan Moller Okin, "Gênero, público e privado": http://migre.me/t1BqD


Artigo da historiadora Joan Scott, "Gênero como categoria de análise histórica": http://migre.me/t1BoU
Artigo da antropóloga Sherry Ortner, "Está a mulher para a natureza assim como o homem para a cultura?": http://migre.me/t1BVu
Discurso da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, "Sejamos todos feministas": http://migre.me/t1BXV
Livro da feminista bel hooks, "Feminism is for everybody: passionate politics": http://migre.me/t1Cb3
http://revistacult.uol.com.br/home/2015/08/ideologia-de-genero-ou-o-genero-da-ideologia/




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