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Dica de Filme

"Capitão Fantástico" (2016)
Direção: Matt Ross


Falar de utopia nesses tempos é muito complicado. Não porque ela seja necessária ou descartável (a depender do contexto), mas, porque estamos num momento em que ser utópico é piegas, demasiadamente romântico, e até idiota. Logo, quem profere certas ideias, é imediatamente taxado da forma mais simplória possível. Essa maneira de "catalogar" pessoas e coisas atualmente talvez impeça o espectado mais desavisado de embarcar na proposta de "Capitão Fantástico", provavelmente, por achar que o filme sejaexplicitamente panfletário, ou (sendo mais rasteiro ainda) "de esquerda". Mas, pra quem for assistí-lo desprovido de preconceitos, certamente encontrará, no mínimo, uma bonita história familiar.

O enredo é centrado em Ben, pai de seis filhos, e cuja mãe deles está internada num hospital. Só que, o que chama a atenção dessa peculiar família é mesmo o estilo de vida que Ben faz os seus rebentos passarem: todos moram numa floresta, e tiram da natureza todo o seu sustento, como comida, vestimentas e até os medicamentos que usam. Além disso, todos passam por um rigoroso treinamento diário, ao melhor estilo "sobrevivência na selva", já que, para o pai, esse tipo de  ensinamento é de suma importância. Só que quando a mãe das crianças morre, todos ficam num dilema entre ir ou não para o funeral dela, já que o sogro de Ben o detesta.




O bom do roteiro é que ele não se prende a rótulos, nem é, digamos, demasiadamente "chapa branca". Sim, o estilo de vida da família é mostrado de maneira divertida e todos passam por muitas "aventuras", mas, também o outro lado é mostrado. Num determinado momento, um dos filhos de Ben questiona de que eles não estão preparados para a vida real, e todo o que sabem é o que está escrito nos livros. O próprio protagonista, mesmo que simpatizemos com ele desde o início, sempre se mostra uma pessoa muito imprudente, colocando em risco a vida de seus filhos inúmeras vezes, e mostrando que ele está longe de ser uma pessoa perfeita. O próprio sogro do personagem principal não é necessariamente pintado como um tirano, nem como uma pessoa má; é, tão somente, alguém muito conservador, que utiliza seu poder financeiro para se impor aos outros.

Essa "humanização" dos personagens tira bastante a possibilidade de maniqueísmo, mostrando que as relações entre as pessoas são mais complexas do que se imagina. Agora, claro, pra quem se incomoda com certas ideologias, muito provavelmente, vai torcer o nariz em certas ocasiões, já que Ben "poderia" ser classificado, sem maiores problemas, como alguém "de esquerda" (ele, inclusive, celebra o "Dia do Nascimento de Noam Chomski"!). Mas, nada é gratuito na trama. Até essas questões são bem amarradas e perfeitamente explicadas e justificadas dentro da ótica dos personagens. E, se alguém ainda insistir em taxar isso ou aquilo, o erro não vai estar, necessariamente, nos realizadores do filme, é bom ressaltar.




Agora, para sermos justos, devemos dizer que "Capitão Fantástico" é um filme de valores muito claros. Um deles, e que é muito bem alicerçado na história através de ótimas cenas, é o de sempre dizer a verdade, em qualquer circunstância. Numa determinada sequência, por exemplo, Ben está na mesa de jantar com seus filhos, sua irmã, seu cunhado e os sobrinhos, e eles começam a falar da morte de sua esposa. Enquanto o casal tenta amenizar a conversa, dando explicações bobas para o ocorrido, Ben se mostra enfático ao dizer que ela se matou. Vai no ponto, justamente, daquela questão dos mais velhos tratarem as crianças como idiotas, que não entendem das coisas, quando, na verdade, elas podem até entenderem melhor do que muitos adultos.

Alguns compararam a produção ao filme "Na Natureza Selvagem", decido ao trato com os recursos naturais que aparecem nos dois longas. Porém, o correto mesmo seria dizer que o parente mais próximo de "Capitão Fantástico" é o estupendo "Indomável Sonhadora", pela forma como os pais, em ambos os filmes, tratam de maneira rude os seus respectivos filhos, mas, não sem um propósito muito claro: ensiná-los a sobreviverem num mundo hostil, num sistema do qual são excluídos. As duas produções, por sinal, carregam na emotividade de seus personagens, mas, incrivelmente, não soam nada piegas ou forçados. É gente simples tentando mostrar, de uma maneira igualmente simples, que podem ensinam à "civilização" valores outrora esquecidos (e, isso fica bem claro no conselho que Ben dá, no final, ao seu filho mais velho). E, isso também se reflete na repulsa dos protagonistas aos shoppings, aos videogames, enfim, a toda uma alienação a que crianças e adolescentes estão sujeitos. Utópico? Fica a critério e cada um julgar.




Em termos de atuações, não há como fugir do óbvio: Viggo Mortensen está (com o perdão do trocadilho) fantástico como Ben. Às vezes, ele diz muito e nos convence. Outras tantas, ele não diz nada, e nos convence do mesmo jeito. Mas, vá lá, fujamos do óbvio também: que elenco mirim formidável temos aqui! Dos mais jovens aos mais velhos, todos compõem muito bem os seus personagens, cada um, com uma característica distinta. Já, a direção de Matt Ross é correta; nada de exercícios (desnecessários) de estilo; apenas a narração da história a ser contada, sem muitas firulas. Em dois pequenos momentos específicos, porém, ele perde (um pouco) a mão, principalmente, num em quem o roteiro quase perigou trair todos os princípios que vinha mostrando até então, mas, bem rápido, ele se recupera, felizmente.

"Capitão Fantástico" foi, sem dúvida, uma das mais gratas surpresas do ano, ao lado de "A Chegada" e "Elle". Panfletário? Em certo aspecto, sim. O que pode incomodar é que o filme prega, sim, ideias e valores bem claros, como qualquer obra de arte; valores, esses, que talvez precisem de uma certa atenção e de um pouco mais de reflexão da geração multiplex. A produção também se mostra honesta ao não santificar, nem demonizar ninguém. Todos aqui tem falhas e qualidades, às vezes, na mesma proporção. E, é esse sentido mais crível que torna a experiência ainda mais agradável de assistir. E, como cinema, "Capitão Fantástico" é, convenhamos, completo. Cabe, apenas, entender a sua proposta, e se deixar levar pela história. Só isso.


Nota: 9/10


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