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Dica de Filme

"República dos Assassinos" (1979)
Direção: Miguel Faria Jr.


Sei perfeitamente o quanto é complicado comparar um filme com outro, principalmente, se ambos foram de épocas diferentes, tendo sido realizados por cineastas distintos. Afinal, além do período em que foram feitos, há sempre a questão da intencionalidade do realizador, o que ele quis realmente passar com tal obra. Digo isso, pois, pra mim, ficou inevitável não traçar um paralelo entre "República dos Assassinos" e o tão famoso "Tropa de Elite". Isso porque o cerne de suas questões é o mesmo, mas, a abordagem é bastante diferente, fazendo a produção de Miguel Faria Jr. ser melhor do que a "obra-prima" de José Padilha.

E, observem: estamos falando de um filme feito em 1979, época da ditadura, e termos tido um tema como o famigerado Esquadrão da Morte sendo retratado de maneira tão crítica no cinema é quase inacreditável. E, é a partir daí que entram as diferença em relação a "Tropa de Elite". Enquanto este tenta, de certa maneira, "justificar" a truculência policial, em "República dos Assassinos", os homens da lei" que se propõem a matar criminosos não iguais, ou até piores, do que as suas vítimas. Engana-se, porém, quem pensa que este filme faça alguma espécie de "apologia da bandidagem". Não. Os que estão à margem da lei são retratados como pessoas comuns, tentando sobreviver; nem melhores, nem piores do que o restante da sociedade.




A história do longa se passa entre final dos anos 60 e o início dos anos 70 no Brasil, quando os chamados grupos de extermínio (compostos por policiais, visando fazerem "justiça com as próprias mãos") atuavam com bastante frequência em todo o país, tornado-se manchete nacional e dividindo opiniões. É nesse ponto que o enredo se foca num dos seus mais notórios membros, Mateus Romeiro, bastante temido por matar os seus alvos com requintes de crueldade, deixando nos corpos desenhos de caveiras, símbolos do grupo. A mídia, claro, adorava isso, pois, era a chance perfeita de fazer sensacionalismo sobre o assunto e vender cada vez mais jornais.

Em paralelo à história de Mateus, e não por acaso, conhecemos uma de suas vítimas ainda em vida, Carlinhos, que vivendo com Eloína, famosa travesti da região, passa de pequenos trambiques ao "negócio" de desmanche de carros. É quando, por decisão própria, Mateus assassina Carlinhos, que os seus companheiro do Esquadrão da Morte pedem para que ele amenize suas ações, pois, a imprensa, de uma maneira geral, já está questionando demais esses casos. A partir de então, entram na jogada setores influentes da sociedade, como um dono de um grande jornal que se disponibiliza a fazer matérias glorificando as ações do grupo e altos escalões da polícia, interessados em dar suporte ao bando, que passa a se chamar Os Homens de Aço. 




A trama, muito boa e bem contada, por sinal, em muitos momentos, acaba servindo de pretexto para que se mostrem duras críticas à sociedade da época (crítica que ainda são muito válida hoje, é bom salientar). Além da violência em si e dos infrações da lei que o grupo comete, vemos os mais sórdidos jogos de poder entre política e imprensa para se aproveitarem de qualquer situação, a fim de se promoverem em cima da mística dos Homens de Aço. Nesse ponto, a imprensa é a mais atacada, onde o dono do jornal é um dos personagens mais anti-éticos da história, não tendo pudores em admitir as reais intenções de certa parte da imprensa em "plantarem" o medo no seio da população. 

O próprio personagem do Mateus Romeiro é muito bem construído, não possuindo aquele ambiguidade cheia de maniqueísmo que vimos na figura da Capitão Nascimento. Somos informados a cada ação dele que Romeiro não passa de um facínora, que não tem pudores, por exemplo, em se relacionar com uma aspirante a atriz, para, depois, deixá-la pela filha do tal dono do jornal, visando, assim, estar mais perto do centro do poder, e ficar mais imune quanto às suas ações. Influências essas que serão úteis em breve, e que expõem, de forma crua e absolutamente pertinente o nível de corrupção em que as instituições brasileiras se encontravam e ainda se encontram. Nesse sentido, o diálogo do filme com a atualidade é muito incômodo, mas, indiscutivelmente importante.



A um roteiro tão crítico, talvez, tenha faltado apenas mostrar um pouco da reação da opinião pública aos chamados grupos de extermínio. Mesmo naquela época, seria interessante ver como as pessoas "comuns" viam esses ações criminosas, seja elogiando, seja criticando isso. Mas, a partir do momento em que a trama se concentra no foco do poder (ou, nesse caso, dos poderes), o filme acaba prestando um ótimo serviço ao expôr, sem concessões, esse tipo de arbitrariedade, que, até os dias de hoje, fica bem distante dos olhos do público em geral. Ajuda muito as fortes atuações, em especial, a de Tarcísio Meira, como Mateus, e  Anselmo Vasconcellos, interpretando brilhantemente a travesti Eloína, talvez, a personagem mais ética da história, o que já é bastante provocativo.

O longa terminou, e, honestamente, eu não ri em nenhum momento. Sorri, decerto, quando Eloína, por exemplo, expressava uma outra alegria em sua vida sofrível. Também não vi a morte sendo tratada com desdém, com piadinhas ou frases de efeito naqueles instantes mais violentos. O filme, igualmente, não tenta justificar a truculência policial, da mesma forma que critica objetivamente a corrupção política e a influência nefasta da mídia. A intenção é fazer o público refletir, e não achar graça com assuntos que exigem seriedade. E, é basicamente isso que diferencia "República dos Assassinos" de "Tropa de Elite". Um se preocupou com mudanças reais em nossa sociedade; o outro, em criar polêmicas tolas. Uma pena que, hoje, um virou "clássico do cinema nacional", enquanto o outro periga cair nos ostracismo, principalmente, em tempos onde um dos mantras mais ditos por aí é "bandido bom é bandido morto". Mas, apesar de tudo, amanhã há de ser outro dia, e "República dos Assassinos" continuará no panteão dos grandes filmes de nossa história. Indiscutivelmente.


Nota: 9/10



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