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Dica de Filme

"Sete Minutos Depois da Meia-Noite"
2016
Direção: Juan Antonio Bayona


A INOCÊNCIA DA INFÂNCIA ROUBADA PELA REALIDADE E RESGATADA PELA FANTASIA

Filmes cujos protagonistas são crianças, geralmente, tendem a ser excelentes. A lista com produções assim é bem interessante, e, de cara, podemos indicar "Indomável Sonhadora", "A Nona Vida de Louis Drax" e "O Labirinto do Fauno". Todos com uma característica em comum: crianças tendo a necessidade de criarem um mundo fantástico para fugirem de uma realidade triste e opressora. Na maioria das vezes, os realizadores entendem muito bem a proposta desse tipo de história, que quase sempre resvala na questão do amadurecimento para a vida adulta, onde a linha que separa essa transição é, muitas vezes, traumática. "Sete Minutos Depois da Meia-Noite", dirigido pelo cineasta espanhol Juan Antonio Bayona (o mesmo de "O Orfanato"), segue essa premissa, mas, de uma maneira um pouco diferente.




Baseado no livro "A Monster Calls", de Patrick Ness, o filme poderia ter sido uma adaptação bastante clichê, dados os temas que permeiam a história. Mas, felizmente, a produção não se rende a um sentimentalismo barato, apesar de gerar muita emoção em certos momentos.No entanto, é uma emoção genuína, daquelas que não se caracterizam por forçarem uma reação desproporcional do espectador, e que acaba soando falso. Muito do mérito disso vem do roteiro, escrito pelo próprio autor da obra original, o que, certamente, conferiu uma aura mais autêntica ao filme. E, o longa já começa com impacto: o garoto protagonista da história, Conor, acorda de um terrível pesadelo, aonde uma igreja desaba, com o chão do terreno afundando e ele tendo que segurar a mão da mãe para não cair. A partir daí, já percebemos que algo está errado na vida dele; algo,ente, mais pesado do que uma criança possa suportar.

As cenas seguintes expõem muito bem a vida que Conor tem que enfrentar: além de cuidar da mãe gravemente doente, precisa lidar com constantes abusos de colegas de escola, que sempre batem nele. Some-se a tudo isso um pai muito ausente, que só vem visitá-lo em épocas muito esporádicas, e uma avó com quem ele não se dá bem. O único refúgio que lhe resta é a sua imaginação, alimentada por sua paixão pelo desenho, ensinado a ele por sua mãe. São nos desenhos que Conor encontra um pouco de alento, que pode extravasar as suas angústias. É quando se apresenta na frente dele uma estranha criatura, um enorme monstro que veio lhe fazer uma proposta: todo dia, ele viria visitar o garoto, e lhe contaria três histórias, e depois, Conor contaria uma quarta, e esta seria a verdade que ele esconde. Cada história será uma revelação para o menino, uma espécie de aprendizado. A princípio, fica relutante,mas, aceita a proposta do monstro, que passa a lhe visitar todos os dias.




É muito interessante a forma como o filme aborda a personalidade de Conor, não tratando-o como como um garoto indefeso, que sempre é a vítima, mas, também expondo que ele passa por um momento difícil em sua vida, obrigando-o a ter uma maturidade muito precoce. É um personagem bem complexo, que se caracteriza por uma profunda solidão, principalmente, aquela que deixa alguém "invisível". Chega a tal ponto a necessidade dele ser notado, que é o próprio Conor quem, de certa forma, provoca os outros garotos do colégio a baterem nele, pois, mesmo que na base da violência, naquele momento de humilhação, ele está sendo percebido de alguma forma. A figura do mostro, inclusive, é bastante formada pelo reflexo do que é o menino. Rebeldia, tristeza, revolta, medo. Todos esses sentimentos são colocados nas histórias que a criatura conta, e não há uma, sequer, que tenha uma moral óbvia e bem definida. Em determinada história contada, o monstro diz ao menino: 

"Muitas coisas verdadeiras parecem uma fraude. Reinos têm os príncipes que merecem, as filhas de fazendeiros morrem sem motivo e, às vezes, bruxas merecem ser salvas". 

Outro aspecto muito positivo é que a história, mesmo possuindo dramas, de certa forma, pesados, faz isso de maneira orgânica, sem desgastar as boas mensagens que o filme possui. A mãe do protagonista, por exemplo, mesmo enfrentando uma grave doença durante todo o decorrer da narrativa, não tem esse aspecto explorado à exaustão, o que poderia até causar certa insensibilidade do espectador. O pai de Conor, também, bastante ausente em sua vida, aparece em algumas cenas apenas para comprovar que a prioridade dele não é o filho, e reforçar a ideia de que o garoto, aparentemente, está, de fato, sozinho, sem ter quem o compreenda. Além do aspecto dramático do roteiro, até mesmo os efeitos visuais não mais comedidos do que costumamos ver por aí, apesar da boa caracterização do monstro e de algumas situações deslumbrantes visualmente. Lembra, inclusive, os bons momentos do cineasta Guilhermo Del Toro, que usa efeitos visuais não necessariamente para encher os olhos de quem assiste, mas, para ter uma função na trama. E, nisso, "Sete Minutos Depois da Meia-Noite" é muito bem elaborado.




O elenco, mesmo ser ter grandes destaques, é muito competente. A começar pelo jovem Lewis MacDougall, que é muito expressivo e cativa bastante no papel de Conor. Sigourney Weaver, que vem se notabilizando por participar de produções "menores" também entrega uma personagem muito interessante, interpretando a avó do garoto, uma senhora um tanto turrona com o seu neto, mas, que esconde um carinho enorme por ele e sua mãe. Esta, por sinal, feita com muita categoria por Felicity Jones, numa caracterização física de uma pessoa doente bem convincente. E, até personagens bem mais secundários são bem defendidos por seus respectivos atores, como é o caso do pai do menino, feito por Toby Kebbell, que, mesmo sem aparecer quase nada durante o filme, tem papel importante na personalidade de Conor, e um dos motivos pelos quais ele busca tanto a fuga da realidade através da fantasia. E, claro, mencionar também a voz poderosa de Liam Neeson, dando muita imponência ao monstro do título original. Na direção, fica evidente que J. A. Bayona faz, aqui, o seu melhor trabalho, filmando as cenas no ângulo certo, e desenvolvendo a narrativa no tempo correto, sempre com o intuito de emergirmos na história cada vez mais. No final, é verdade, as situações ameaçam ficar um pouco piegas, mas, naquela altura, a construção da história foi tão eficiente, que aceitamos tranquilamente, o seu desfecho. 

"Sete Minutos Depois da Meia-Noite", ao contrário de filmes com o mesmo mote (criança cria um mundo de fantasia para fugir de uma dura realidade), não é tão impactante como poderia ter sido. No entanto, da mesma maneira que essas produções, consegue falar de forma satisfatória a respeito de assuntos diversos. Sem ser apelativo ou maniqueísta, expõe assuntos delicados, como ausência dos pais, bullying e amadurecimento precoce. O monstro seria uma espécie de metáfora para os nossos medos, principalmente, o medo de encarar uma verdade que nos torne muito humanos. Tão humanos que, assim como Conor a princípio, rejeitamos as nossas próprias fantasias, achando que são meras válvulas de escape, quando, na verdade, podem ser o nosso único alento diante de uma realidade absurda, além de uma intensa fonte de aprendizado. Uma fantasia que delimita as principais fases da vida. Não à toa, as primeira frases que vemos no filme são: "Essa história começa como todas as outras histórias: com um menino velho demais para ser criança, e jovem demais para ser adulto". Trata-se, portanto, de uma bela fábula, que representa nossas mais íntimas angústias (independente da idade).


Nota: 8,5/10


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