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Dica de Filme

"Um Pombo Pousou num Galho Refletindo Sobre a Existência"
2014
Direção: Roy Andersson


REFLEXÕES INCÔMODAS NUM FILME IGUALMENTE INCÔMODO

Cinema para pensar, "cabeçudo", difícil... Sim, a arte do diretor sueco Roy Andersson é assim, e um pouco mais. Quem teve a oportunidade de assistir a "Vocês, os Vivos", sabe que ele não mede concessões para falar o quer e nem se incomoda se está fazendo um cinema de "não ação", justamente na contramão do ritmo acelerado que a sétima arte vem tomando nos últimos tempos. Há quem adore e há que deteste. De fato, não existe meio termo no cinema de Roy Andersson, que, se não agrada a todos (e, nem precisa), possui algo essencial, que é fazer um filme realmente autoral, diferente, cheio de nuances, que, muitas vezes, é necessário assistí-lo outras vezes mais.




O fio condutor da trama, que é o que amarra todas as histórias, mostra Sam e Jonathan, dois vendedores ambulantes de artigos de diversão. Peculiaridade: os dois, de tão desanimados e depressivos, parecem mortos vivos, o que contrasta com o ramo do qual trabalham, o que acaba gerando aquele riso forçado e engasgado no espectador, já que tal situação, além de ser de certa forma cômica, é também muito triste. Ao redor deles, figuras e acontecimentos pitorescos vão se intercalando, e passando a mensagem que Roy Andersson quer de maneira muito ácida. Seja num homem que quer tirar uma bolsa de dinheiro das mãos de sua mãe moribunda, seja no assédio explícito de uma professora de dança com o seu aluno, vamos sendo provocados do que é ser, em essência, um ser humano (ponto central deste filme, que é a parte final de uma trilogia, iniciada com "Canções do Segundo Andar", e continuada com "Vocês, os Vivos").

E, a sucessão de situações absurdas, melancólicas, com uma certa dose de humor negro, vão se delineando. Um dos pontos altos é quando um restaurante é "invadido" pela cavalaria de um príncipe, cujo exército está indo para a guerra contra os russos. Imagens extasiantes, e que se tornam ainda mais emblemáticas na "volta" dessa cavalaria, uma bela crítica à guerra e aos donos do poder. Há, no entanto, outros momentos mais amenos, mas, igualmente melancólicos, quando, por exemplo, acompanhamos um senhor cabisbaixo num bar, e, num fluxo temporal, vemos como ele era feliz naquele mesmo ambiente, num período que parecia remontar à Segunda Guerra, provavelmente. Mas, em termos de angústia, nada parece superar a depressão crônica da qual vive Jonathan, quase sempre tendo uma vontade imensa de chorar e questionando a todo o momento o que é a vida. É, inclusive, num de seus devaneios, que vemos uma das imagens mais poderosas do filme, e que critica, acima de tudo, o espetáculo das desgraças humanas para uma elite senil. Muito forte.




Mesmo pesado em muitos pontos, o filme também presa pela ironia. São muitos os personagens que vivem repetindo uma espécie de mantra: "Fico feliz que esteja tudo bem". Mas, não. Não está tudo bem. Ao contrário: o ser humano é vil, mesquinho, arrogante e pouco altruísta. Não se importa com o sofrimento próximo, mesmo que esse próximo seja um "amigo" ou parente. Está mais preocupado com as futilidades e as amarras do cotidiano. Não vê problemas em maltratar animais ou pessoas para fins escusos ou, simplesmente, para o bel prazer de uma classe privilegiada. É como Jonathan diz, num determinado momento: "Nós não pedimos perdão pelos nossos erros, nem pelos dos outros". Pra quem consegue ter o mínimo de sensibilidade, de fato, não são constatações de fácil digestão. São coisas muito incômodas de se assistirem. Mas, a arte não está aí para isso? Para incomodar?

A direção de Roy Andersson é propositalmente carregada, e serve muito bem ao seu propósito. Evidentemente, que alguns momentos poderiam ser mais abreviados, nem para dar "ritmo" à trama, mas, porque a mensagem já foi passada, e fica se repetindo, algumas, vezes, desnecessariamente. Ainda assim, é uma ótima direção, colocando vários elementos numa única cena, obrigando o espectador a prestara mais atenção ainda no que ocorre na "periferia" da ação principal. As atuações não são nada extraordinárias, mas, compõem bem ao que a obra se propõe. Nesse sentido, o que mais se destaca é mesmo Holger Andersson, que faz do seu Jonathan uma figura patética, mas, que representa muito bem o cerne do ser humano: este ser patético, por natureza, lutando sempre contra os outros e contra si.




"Um Pombo Pousou num Galho Refletindo Sobre a Existência" é um filme difícil? Não. Eu diria até que não é uma obra tão complexa quanto "Vocês, os Vivos", por exemplo. Porém, não é o típico filme feito para agradar ao grande público, acostumado a tramas simplórias, "mastigadas" e bastante rasas. De certo, muitos acharão somente chato. Mas, a intenção foi essa, mesmo. E, se é para "facilitar" certos entendimentos, pra isso, existe o cinema de escapismo hollywoodiano que faz isso muito bem, obrigado. Aqui, o buraco é mais embaixo, as inquietações são mais reais, críveis, e muito próximas a nós. Obviamente, a maioria não quer se ver num espelho tão nebuloso, mas, assim que termina a trilogia de "o que é ser um ser humano" de Roy Andersson, ainda ficamos com a vaga esperança de que amanhã pode ser um outro dia. Basta pararmos um pouco para refletirmos.


Nota: 8,5/10


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