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Opinião

MALLU MAGALHÃES, O CLIPE DA DISCÓRDIA E A NOSSA HIPOCRISIA COTIDIANA


Antes de mais nada, um aviso: sim, eu posso falar sobre essa questão do racismo. Sei perfeitamente que, nisso, é a comunidade negra que sofre os problemas dessa chaga social, mas, mesmo sendo branco, e, sim, gozando de privilégios que a cor da minha pele permite, eu, assim como qualquer outra pessoa, tenho o direito de debater esse assunto. Vai caber a quem tiver um argumento melhor, refutar o que vou escrever aqui. Porém, só não valerá dizer que eu não tenho propriedade para falar sobre o tema. Esclarecendo o óbvio, vamos ao debate em si.

Confesso que, até há uns dois dias atrás, eu estava alheio à toda polêmica envolvendo o mais recente clipe da cantora Mallu Magalhães, cujo sugestivo título é "Você Não Presta", e que foi acusado de promover o racismo. Creio que, antes de mais nada, precisamos nos ater, a princípio, à interpretação da letra, isoladamente, para depois, irmos ao clipe em questão. E, aqui está:

Vem, eu não tenho mistério, não
Eu guardo as minhas cicatrizes
Mantenho as minhas diretrizes

Não, eu não tenho segredo, não
Mas tenho o meu império interior
Meu mundo solitário

Eu convido todo mundo para a minha festa
Só não convido você porque você não presta

Quem sabe demais, quem nunca chorou
Quem nunca perdeu tudo, nunca viu o carnaval

Você se faz de louca
Mas tô sacando seu veneno
Não vem na minha sopa
Não vem no meu terreno

Fica claro (ou, pelo menos, deveria ficar) que a mensagem da letra é uma indireta certeira a alguém (uma outra mulher, mais especificamente), com Mallu dizendo ainda "mantenho as minhas diretrizes", ou seja, "mantenho o meu caráter, a minha opinião, e que vão contra o que você representa". Até aí, nada demais. Porém, o clipe da música foi feito, e, imediatamente, surgiram acusações de racismo à cantora e aos realizadores do vídeo. Vejamos:


Acho que é consenso de todos que foram três os aspectos que mais incomodaram no clipe. O primeiro, é a sexualização dos bailarinos, todos negros, bastante à flor da pele. Mas, até aí, nada de tão ofensivo, convenhamos, pois, as danças afro, são, em si, muito sensuais, transbordando sexualidade nas suas mais diversas coreografias. Ora, se temos que acusar o clipe de "Você Não Presta" de sexualizar demais os corpos negros, então, cabe fazemos a mesma crítica ao axé e à vertente mais popular do funk, não? Ou, alguém há de negar que há uma grande exploração dos corpos negros nesses ritmos? Mas, o axé e o funk são feitos pelo pessoal da "quebrada", da "comunidade", e, por isso, não são merecedores de críticas. Ao passo que Mallu é a "burguesinha branca", que está se aproveitando dos corpos negros para vender, não é? Mas, aí, cabe a seguinte questão: a sexualidade desse clipe da Mallu é tão ofensiva quanto uma canção do MC Catra? Deixo com vocês essa reflexão.

Um segundo ponto levantado se refere ao fato de Mallu Magalhães nunca ter contato direto com os dançarinos do clipe (no sentido de toque, mesmo). Daí, que muitos interpretaram que a letra se referia, metaforicamente, aos dançarinos (e, em suma, à comunidade negra): "Eu convido todo mundo para a minha festa / Só não convido você porque você não presta". No entanto, os próprios dançarinos, na maior parte do tempo, não estão juntos, dançando de forma isolada, e mesmo quando estão próximos, só se tocam quando estão parados, mas, não quando dançam, o que poderíamos deduzir que poderia haver desunião até entre eles. Só que a interpretação da letra, sem nenhum esforço mental, pode ser feita assim: que Mallu, quando diz "Eu convido todo mundo para a minha festa", está se referindo, justamente, aos dançarinos, ou seja, aos negros, e, sim, aos seus amigos, deixando de fora justamente aquela pessoa a quem está destinada a letra.

Pensar dessa forma não é tão absurdo assim, principalmente se levarmos em consideração que a própria Mallu Magalhães fez amizade com os bailarinos que participam do clipe. Inclusive, num recente pedido de desculpas aos que se ofenderam com o vídeo, ela escreveu: "Foram convidados pela produtora e pelo diretor os bailarinos Bruno Cadinha, Aires d´Alva, Filipa Amaro, Xenos Palma, Stella Carvalho e Manuela Cabitango. Com a última, inclusive, tive a alegria de fazer aulas para me preparar para o vídeo." Nesse sentido, quem ficaria de fora da festa dela seria, especificamente, o seu desafeto, e não os seus amigos, sejam eles, brancos ou negros. Inclusive, numa determinada sequência, a cantora é mostrada dançando ao lado de uma das bailarinas, com direito a coreografia ensaiada, e tudo. Ou seja, uma prova de que aquelas pessoas ali seriam suas inimigas? Creio que não.


E, por fim, o último aspecto que o clipe mostra que incomodou muita gente foram algumas cenas em que os bailarinos aparecem numa escadaria coberta por grades, que pode parecer, de fato, uma prisão. Mas, se também formos levar em consideração que aquelas grades faziam parte do cenário, essa interpretação de que o cenário simbolizou uma espécie de "jaula", digamos assim, acaba sendo exagerado. Sim, é verdade que em dois takes, os dançarinos aparecem segurando nas grades, porém, quando isso ocorre na primeira cena, Mallu canta "Eu guardo as minhas cicatrizes", o que também pode ser interpretado como um estado emocional de clausura, de prisão, enfim, e não necessariamente que isso simbolize algo verdadeiramente racista.

Muitos argumentam que Mallu Magalhães nunca mostrou negros em seus clipes, mas, isso, a bem da verdade, não significa muita coisa. Ora, se no próximo vídeo que ela fizer, foram mostrados pessoas LGBT's, isso significa que ela é homofóbica ou que está reproduzindo a homofobia? Temos, sim, que acharmos argumentos melhores se quisermos combater o racismo. E, em termos de música, este clipe está longe de ser um problema envolvendo a questão do racismo. Claro, não podemos também desdenhar quem se sentiu incomodado com ele, de alguma forma. É justo que todos sejam devidamente escutados. Mas, também tenho convicção de que, sobre esse assunto, muitas "coisas menores" são excessivamente polemizadas, enquanto que outras mais graves são esquecidas. 

Por exemplo: num antigo quadro do programa Zorra Total, havia uma personagem chamada Adelaide que era um completo desrespeito à imagem da mulher negra, usando e abusando dos estereótipos mais grotescos possíveis. No entanto, eu não me lembro de ter havido tanta polêmica assim com esse quadro humorístico. Ao contrário: era um dos momentos mais populares do programa. Da mesma maneira, não recordo de ter havido tanto estardalhaço em relação às declarações assumidamente racistas do humorista Danilo Gentili, que chamou um homem abertamente de macaco. Os exemplos, enfim, são vários, e denotam, uma certa seletividade crítica em relação a assuntos "polêmicos".


Evidentemente que devemos combater o racismo de todas as formas que pudermos. Mas, também devemos ter o equilíbrio necessário para não estarmos apenas criando uma polêmica vazia em torno de algo que, daqui há algum tempo, será completamente esquecido. E, sendo bem honesto: o clipe de "Você Não Presta" não é racista. Pode ter incomodado algumas pessoas, muito provavelmente, porque, no calor do momento, as interpretações tenham sido um pouco exageradas. Mas, não há justificativa em taxar o vídeo ou a próprio Mallu Magalhães de racista, até mesmo porque, ela nunca disse nada que denotasse esse tipo de postura. Uma pena que, no frigir dos ovos, o que deva sobrar de tudo isso sejam apenas debates vazios. 

Enquanto isso, a nossa capacidade de enxergarmos o nosso próprio racismo cotidiano continuará firme e forte (afinal, racistas são os "outros").



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