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Dica de Filme

"A Constituição"
2016
Direção: Rajko Grlic


ALGUMAS DE NOSSAS MAIS PROFUNDAS INTOLERÂNCIAS BRILHANTEMENTE ABORDADAS NUM BELÍSSIMO FILME

Antes de falar do filme em si, um pouco de História. De 1918 a 1991, Sérvia e Croácia eram países que faziam parte da antiga Iugoslávia. No entanto, após 1991, houve a proclamação da independência da Croácia, e que foi seguida de uma guerra entre as forças croatas e os separatistas sérvios. Esses últimos desejavam integrar um Estado etnicamente puro, reunindo todos os sérvios da ex-Iugoslávia. O conflito deixou cerca de 20 mil mortos, além de uma ferida aberta de intolerância e preconceito entre os dois povos, e que dura até os dias atuais. E, é nesse conturbado contexto que se passa o enredo de "A Constituição".




A primeira sequência, de alguém colocando um vestido e caminhando até um bar é de uma beleza ímpar (por sinal, o filme é todo belo). Quando descobrimos que essa pessoa é, na verdade, o professor universitário Vjeko Kralj, vamos descobrindo um pouco mais dele, e até achando que ele será o protagonista da trama. Vemos como , além de sua condição homossexual, também gosta de se vestir de mulher. Em paralelo, precisa cuidar do pai, um senhor inválido, eternamente numa cama, mas, que teve seus momentos de glória quando lutou contra a independência da Croácia há muitos anos. Com o passar do tempo, um determinado fato une Vjeko a Ante e Maja, casal vizinho dele. 

Ante está precisando passar num teste sobre o conhecimento da Constituição croata para poder se ingressar definitivamente na corporação policial da qual faz parte. Sua esposa, Maja, que é enfermeira, aceita cuidar do pai de Vjeko, contanto que este ensine os principais pontos da Constituição ao seu marido. Porém, conflitos e intolerâncias afloram quando o professor descobre que Ante é de origem sérvia, e começa a mostrar uma grande xenofobia por ele. Ao passo que Ante também se mostra homofóbico ao questionar a condição sexual de Vjeko. No meio dos dois, Maja vai tentar uma forma de reconciliação através da convivência (e, possível tolerância) entre ambos.




Com um enredo desses, o filme perigava ser panfletário ou maniqueísta. Não é nenhum dos dois. É muito bem explorado o quanto o preconceito cega e emburrece, visto que Vjeko, mesmo quase sempre correndo riscos de agressão contante por causa de sua homossexualidade, ele ainda consegue se intolerante por causa da etnia de seu vizinho. Ao passo que, apesar de não justificar essa atitude dele, o roteiro mostra que sua relação com o povo sérvio foi bem traumática, e que ele não deixa de ter uma certa razão. Além disso, vemos também que Ante e Maja não são pessoas perfeitas, já que um se mostra bastante preconceituoso com a homossexualidade de Vjeko, e a outra, de uma certa maneira, tem alguns interesses pelo professor que não chegam a ser dos mais nobres.

Com o passar da trama, boa alfinetadas vão sendo dadas na hipocrisia que rege certas sociedades. É ótimo o momento em que Ante questiona a xenofobia de Vjeko usando o que está escrito na própria Constituição que estão estudando. Do lado deste, apesar de sua notória antipatia, também vislumbramos uma terna, triste e melancólica humanidade, principalmente, quando ele se "traveste" de Katarina, uma espécie de alter ego, em momentos verdadeiramente muito bonitos (a exemplo de um em que ele, sentado na cabeceira da cama do pai, relembra com ele, fatos de suas vidas através de fotos antigas).  A questão da homofobia é outro aspecto muito bem tratado no filme, sem que parece forçado ou caricato, abordando o assunto de maneira ora realista, ora poética, mas, sempre com o respeito devido.




As atuações são formidáveis, com atenção especial para Nebojša Glogovac, que interpreta Vjeko, e Ksenija Marinković, que faz Maja. O diretor Rajko Grlic é muito hábil ao contar a narrativa de maneira simples, mas, ao mesmo tempo, e até com um certo humor, expondo as feridas abertas de uma sociedade doente, que mesmo possuindo uma bela Constituição no papel, ainda possui discrepâncias enormes, seja pelo fato de alguém ser discriminado por ser de origem sérvia, seja devido a uma pessoa ser espancada no meio da rua devido à sua condição sexual. Ao dialogar com temas tão importantes atualmente, porém, sem soar raso ou oportunista, o filme oferece um interessante diálogo sobre tolerância e empatia, e ainda consegue nos apresentar uma ótima história, com personagens não necessariamente carismáticos, mas, autênticos, o que torna a história ainda mais forte e plausível. Um dos melhores filmes recentes do cinema europeu.


Nota: 9/10


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