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DICA DE DISCO

"CICATRIZ", NAÇÃO ZUMBI (2014)




Eis que a Nação, após 7 longos anos, lança um disco de inéditas após o ótimo "Fome de Tudo". E, a espera, será que valeu a pena? Vamos por partes.

Nesse meio tempo, a banda fez a gravação de seu primeiro DVD em Recife cheio de problemas técnicos. O produto final, colocado à venda 4 anos depois, é bom, mas, para quem estava no show em si, sentiu um certo cansaço do grupo. Não físico, mas mental. Ele já começava a dar ares de fadiga, tocando sem muita empolgação (salvo o sempre excelente Lúcio Maia). Algum tempo se passa, e eles lançam, com a Mundo Livre SA um disco de covers, em que uma banda tocava as músicas da outra. O resultado ficou interessante. Nitidamente a Mundo Livre se mostrava mais empenhada no trabalho.




Por fim, chegamos ao disco em questão, "Cicatriz", e a mesma sensação de cansaço parece continuar. A começar pela primeira música, que dá título ao álbum. Enquanto que em trabalhos anteriores o "cartão de visitas" eram canções geniais, como "Mormaço" e "Hoje, Amanhã e Depois", aqui a morosidade reina. A sonoridade mostra-se frouxa, e a letra não ajuda muito: "Quando fica cicatriz fica difícil de esquecer / Visível marca de um riscado inesperado / Pra lembrar o que lhe aconteceu / Visível marca de um riscado inesperado / Pra lembrar e nunca mais esquecer". Ela até gruda na cabeça após algumas audições, mas o resultado dela ficou abaixo da média.

Superior é a faixa seguinte, "Bala Perdida", com uma levada de guitarra heavy arrastada, servindo de base para Jorge Du Peixe dizer: "Senhora bala, me deixe passar / Logo eu que sou pacífico / Senhora bala, me dê licença / Eu não sirvo pro seu destino". Nada maravilhoso; no entanto, mais interessante que o início do disco. A seguir, a levada ska de "O Que te Faz Rir" rende um dos melhores momentos deste trabalho. Mais ou menos no mesmo ritmo, só que como um reggae mais encorpado, vai a também muito boa "Defeito Perfeito". Porém, algo está errado: já estamos na quarta faixa, e nenhuma explosão, nada feito como se aquela fosse a última música deles... Adiante.




A sonolenta (no bom sentido) ciranda "A Melhor Hora da Praia", com certeza, vai dividir opiniões, simplesmente pelo fato de colocar Marisa Monte nos vocais. Cismas à parte, a sonoridade da música é bem rica e as melodias muito boas. A participação de Céu na música "Inferno", do disco anterior, ficou melhor, mas essa aqui não decepciona. Chegamos, aí sim, a uma música sonolenta (no pior sentido): "Um Sonho". Claro, a sonoridade é típica de muitas canções da Nação, como "Futura", mas não tem a mesma pegada, principalmente rítmica. A letra também não favorece: "Estão comendo o mundo pelas beiradas / Roendo tudo, quase não sobra nada / Respirei fundo, achando que ainda começava / Um grito no escuro, um encontro sem hora marcada". Os segundos finais, com um dedilhado de viola, melhora as coisas, mas já é tarde.

Estamos na 6ª música de "Cicatriz", e a impressão que permeia é a de que a banda quer soar mais pop e acessível, porém, está desconfortável nesse universo. As melodias estão mais preocupadas com uma estrutura fixa, só que no caso da Nação acaba soando um tanto chato. Parece que eles perceberam isso, pois a 7ª faixa, "Novas Auroras", dá um salto numa sonoridade mais instigada, e até dançante. Outra das melhores do disco. "Nunca te Vi" seria uma música mais completa se a letra não parecesse como tantas do pop rock que infestam as rádios: "Morro e vivo na espera de um novo amanhã / Que nunca chegou".




Faltam três músicas para o término do disco, e, finalmente, a explosão vem com "Foi de Amor", num dos melhores trabalhos do guitarrista Lúcio Maia no álbum. A letra, porém, e mais uma vez, não ajuda. Prova de que Jorge Du Peixa, pelo menos aqui, perdeu a mão. O que é uma pena, pois as suas composições são, justamente, um dos principais atrativos da fase da banda pós-Chico Science. Já, a penúltima faixa, "Cuidado" é mais um dos destaques, tanto pela sonoridade quanto pelo refrão: "Tome cuidado / no seu cuidado / com seu cuidado / em ter cuidado". E, finalmente, a última faixa lembra um pouco do que sobrou da Nação: som pesado, lembrando "Meu Maracatu Pesa uma Tonelada" e "Fome de Tudo", além de uma visível empolgação maior dos instrumentistas.

O que fica? Notadamente, um razoável bom disco, porém, longe da urgência de um "Rádio S.Amb.A.", do contágio de um "Nação Zumbi", da ousadia de um "Futura" ou da diversidade de um "Fome de Tudo". Sabemos que todos os integrantes da banda, principalmente o vocalista / letrista Jorge Du Peixe, podem mais. No entanto, ficou, com esse disco, parecendo que eles cansaram de lutar fora do sistema, fazendo álbuns geniais, e resolveram tentar ser mais populares, o que, aparentemente, não deu certo.




Claro, mesmo o pior disco da Nação Zumbi continua sendo melhor que muita coisa sendo feita na música brasileira hoje em dia. Todavia, é frustante ver (e ouvir) tanto potencial desperdiçado. Aguardemos, da próxima, um trabalho ao nível dos envolvidos.


NOTA: 6,5/10.

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