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DICA DE FILME

"Deus os Cria 2" (2004)




Este filme porto-riquenho é um tanto inusitado. Primeiro, ele não parece ser cinema, mas sim literatura, pela forma como os enredos são narrados. Depois, podemos dizer que é uma produção emocionante, mas não é pasteurizada, que você já desconfia ser falsa de cara. E, ainda temos um tom semi-documental, onde o conjunto das histórias é mostrada de maneira bastante verídica, mas sabemos também que se trata de ficção.

Esses "jogos" na estrutura narrativa propostos pelo diretor Jacobo Morales dão um tom bem interessante ao longa, ao mesmo tempo que ele toca em temas delicados com uma certa facilidade. Esse filme, na realidade, é a continuação de "Deus os Cria", que Morales fez em 1980. Mais de vinte anos depois, o cineasta retoma a estrutura original (divisão em pequenas histórias para mostrar suas críticas à sociedade contemporânea).




Aqui, a primeira história, "O mesmo de outra maneira", é quase uma auto-biografia de Morales, visto que é ele quem participa como ator principal. Esse primeiro enredo conta a história de um cineasta, cuja sua esposa (que também trabalha como atriz) está com princípio de Alzheimer. Compadecido com a situação dela, ele tenta lhe fazer um último filme, só que, com a recusa do seu roteiro em vários lugares, decide assaltar um banco, e com o dinheiro financiar esse projeto.

Depois, a história mostrada chama-se "Felix", e conta como um viciado em drogas, após ganhar um prêmio na loteria, recebe a ajuda de uma bondosa senhora, e se liberta através da arte. O terceiro e último enredo fala sobre uma típica família de classe alta, cujo status esconde traições e falsas relações, num ciclo sem fim de mentiras.




Em comum com as três histórias, o que encontramos é o respeito ao espectador. Os personagens agem da maneira que deveriam agir, sem precisar cometer atos estúpidos apenas para criar um clima de tensão desnecessário. As críticas sociais também são muito bem colocadas no meio da vida dos personagens, sejam elas contra a indústria do entretenimento (o cineasta da primeira história é indagado se o seu roteiro possui ação e erotismo) ou contra a religião (o final de "Felix", sem dúvida, é um tapa sem mão em toda uma hipocrisia que trata os marginalizados como condenados ao Inferno).

Some-se a tudo isso o equilíbrio, onde nenhuma cena é desperdiçada, ou feita de qualquer maneira. Todos os pontos que o diretor Jacobo Morales quer mostrar têm seu tempo, e ainda acompanhamos o desenrolar da vida de cada um dos personagens de forma tranquila, sem atropelos. As atuações, bem naturalistas, reforçam a ideia de que estamos diante de algo genuinamente humano.

Um filme pouco conhecido, mas, sem dúvida, ótimo para verificar que o cinema ainda possui algo a dizer que não sejam futilidades.


NOTA: 9,5/10.

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