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DICA DE FILME

"KARAMAZOVI" (2008)




Adaptar um clássico literário para o cinema sempre é uma tarefa arriscada. Uns, preferem a zona de conforto de passar, exatamente, o que está no livro para o filme. Outros, são ousados e, praticamente, reinventam a estória original. Esse "Karamazovi" não se enquadra em nenhuma dessas categorias; ao mesmo tempo que atualiza o texto, não deixa perder sua essência.

O romance “Os Irmãos Karamazov”, de Fiodor Dostoievski (1821/1881), mostra o desmoronamento de uma família, cuja moral foi perdida a tempos, chegando ao ponto do patriarca dela relegar os cuidados dos filhos a um segundo plano. Cada um deles, com uma distinta personalidade, passa a odiar o pai (e não sem razão). O livro é um panorama da sociedade russa da segunda metade do século XIX, e tem início, verdadeiramente, quando o patriarca é misteriosamente assassinado por um dos filhos. A trama passa a girar em torno do crime e de seus prováveis suspeitos.




Já, o filme "Karamazovi" centra-se no trabalho do grupo teatral Prague’s Dejvicke Theatre. No início, alguns atores partem de Praga para a Cracóvia, na Polônia, onde deverão participar de um festival alternativo em uma siderúrgica local. Eles chegam lá, e no intuito de se acostumarem com o lugar, ensaiam a peça que apresentarão no dia seguinte. Próximo ao espetáculo em si, que ocupa cerca de 70% do filme, vemos o que acontece nos bastidores, tanto para os atores e, significativamente, para um dos trabalhadores da usina.

Os atores entram e saem dos seus papéis, acrescentando muito para o impacto do seu desempenho. Essa quebra da “ilusão”, ao se misturar com o "real", nos faz perceber os dois mundos, as múltiplas realidades, mas que se completam. E, essa é, justamente, uma das principais essências do filme: o intercalamento do ficcional com as situações "reais". É emblemático, por exemplo, quando os atores, na encenação, falam sobre o sofrimento das crianças, e um operário que teve seu filho gravemente acidentado, observa atônito. Sente-se mais atraído pela ficção do que pela dureza da realidade de sua vida.




O melhor de tudo é que para se poder acompanhar e apreciar o filme / peça, não é preciso estar familiarizado com o romance. A adaptação está bem estruturada e se centrou apenas em alguns temas, portanto não há perigo de se perder totalmente. Um dos principais problemas na adaptação de um clássico, é que, como o público conhece o produto original, qualquer detalhe é crucial. Se houver muitas liberdades artísticas, o foco pode ser perdido. Se for muito fiel, o risco é de comodismo. ''Karamazovi'', inteligentemente, evita tanto uma coisa como outra.

Ao final do filme, cabe perguntar: é a arte que imita a vida, ou seria o contrário?




NOTA: 9/10.

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