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DICA DE FILME

"A CAÇA" (2012)




Alguns assuntos parecem estar sempre presentes a ponto de vermos algo (como um filme), e dizermos: "Coincidentemente, é isto que está acontecendo, hoje em dia". No caso de "A Caça", produção do dinamarquês Thomas Vinterberg, cineasta oriundo do movimento Dogma 95, a sensação para os brasileiros de casos recentes torna-se ainda mais desconcertante, principalmente porque expõe muito bem certas mazelas.

O longa trata de Lucas, professor do jardim da infância que é acusado de abuso sexual por uma menina. A partir de então, passa a ser hostilizado na cidade onde vive, mesmo as autoridades não comprovando nada contra ele. Interessante notar que o diretor não tem pressa ao abordar esse fato, colocando tempo suficiente para apresentar cada um dos personagens. Lucas, por exemplo, é mostrado como uma pessoa tranquila e reclusa, só se expondo um pouco mais na presença dos amigos, que assim como ele, tem por tradição cultural a caça como esporte.




Porém, nada é óbvio ou maniqueísta em "A Caça". Enquanto alguns de seus amigos começam a ignorá-lo ou até agredí-lo depois da acusação de abuso, outros mostram-se compreensíveis, ajudando-o de diversas maneiras. Lucas, só pra constar também, possui um filho adolescente que, de início, nem aparece em cena, para, depois, surgir como um dos principais pontos de apoio do pai. Saliente-se que as ações dos personagens também são muito verídicas, autênticas. Nenhum deles comete absurdos só para gerar mais tensão à trama, e isso pode ser frustrante para alguns espectadores.

Outra boa característica de "A Caça" é a sua falta de catarses ou choques desnecessários. Os acontecimentos são como precisam ser, sem grandes arroubos narrativos. E, isso torna o filme ainda mais excelente, pois permite a Vinterberg explorar melhor certos problemas sociais, como submeter uma pessoa ao linchamento moral, mesmo que não haja provas concretas contra ela; apenas para que a "sensação de justiça" seja saciada.




Há de se destacar duas cenas: (spoilers) a primeira mostra Lucas, após ser solto pela polícia, sem que nenhuma prova contra ele tenha sido encontrada. Ele vai fazer compras num supermercado e é barbaramente agredido, mas, mesmo assim, tenta manter sua dignidade. A outra cena mostra o mesmo Lucas na Igreja, às vésperas do Natal, onde, num acesso de (compreensível) fúria, interpela Theo, pai da menina que o acusou, e tenta fazê-lo acreditar que é inocente. Duas sequências muito bem rodadas, mostrando uma segurança muito boa do diretor e dos atores. Ao final do filme, pensamos que a redenção virá, mas, subjetivamente, fica a questão: como um caçador se sente sendo a presa.

"A Caça", como se percebe, não é um filme de tensões aleatórias ou superficiais. É, sim, um estudo da condição humana, de como podemos, facilmente, cometer injustiças de como podemos ser mesquinhos, mas, ao mesmo tempo, alguns podem mostrar-se solidários ao sofrimento de alguém. Ainda há tempo para analisar que, mesmo com virtudes, uma pessoa pode ter atos condenáveis por alguns (mesmo Lucas se mostrando uma ótima pessoa, ele é caçador de cervos, e apoia que o filho também o seja). Isso, com certeza, evita uma vitimização exagerada do personagem principal.




Vinterberg conseguiu um ótimo feito: fez um filme com um tema delicado, sem ser apelativo ou revanchista. Uma produção que, longe de querer ser polêmica, coloca o dedo numa ferida ainda aberta em muitas sociedades, principalmente no Brasil atual, onde, recentemente, uma mulher foi espancada e morta após ser acusada de sequestrar crianças. Provou-se, depois, que ela era inocente. "A Caça", pois, não é só um grande longa, mas se mostra uma produção necessária, e, como as melhores obras de arte nos dizem mais do que mostram.


NOTA: 9,5/10.

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