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DICA DE DISCO

"OK COMPUTER" (1997)




Falar a respeito de obras de arte importantes é tarefa difícil, ainda mais quando as opiniões são unânimes. Não à toa, o disco "Ok Computer" foi considerado o "Dark Side of the Moon" de nossa época. Porém, eu iria além: chega a ser melhor do que o clássico do Pink Floyd. Enquanto um foi concebido na década de 70, quando era "fácil" e até obrigatório gravar grandes álbuns, devido à alta rotação de criatividade vigente, o trabalho máximo do Radiohead foi feito num tempo de "vacas magras", onde a mediocridade musical era dominante. E, que se alastra até hoje, diga-se. Diante disso, "Ok Computer" não foi somente um excelente disco, mas, a salvação, os ares que o mundo musical precisava respirar há tempos.

Thom Yorke, líder e vocalista do Radiohead, sempre foi um inconformado com o meio artístico e isso ajudou na elaboração de sua obra-prima. O histórico de seus álbuns lançados até então explicam melhor esse processo. "Pablo Honey", de 1993, foi colocado no mercado sem grandes expectativas, e, mesmo assim, fez um enorme sucesso, principalmente devido à música de trabalho "Creep". Isso tudo inquietava Yorke, que tentou ser o mais anti-comercial possível no álbum seguinte, "The Bends", que, ironia, teve repercussão maior ainda. A partir daí, inconformados com o rumo do mundo, da arte, e da vida, em si, lançam aquele que seria seu "suicídio comercial". Incrivelmente, o impacto de "Ok Computer" superou tudo que podiam sonhar. E, a aceitação foi enorme, como se a música estivesse pedindo um disco assim.




A obra é conceitual e fala de um tema que ainda soa pertinente: a falta de identidade do ser humano perante a máquina, em especial, o computador. Claro que tocar em assuntos relevantes não confere, necessariamente, qualidade; é preciso mais do que isso. No caso do Radiohead, temos um cantor que sempre interpreta suas canções de maneira passional, além de ser um ótimo letrista. Além disso, houve a participação imprescindível dos outros integrantes do grupo, em especial, o excepcional guitarrista Jonny Greenwood, que abdicou de linhas mais tradicionais de seu instrumento para completar a obra com barulhos ora estranhos e assustadores, ora sublimes, e que remetem diretamente aos temas abordados. Esse nível absurdo de experimentalismo rendeu momentos memoráveis ao longo de todo o disco. É música mas passa a impressão de ser outra coisa, ainda maior.

E, as canções propriamente ditas? Bem, mesmo fazendo parte de um conjunto maior, isoladamente, elas possuem atrativos variados. Desde o caos obscuro de "Paranoid Android" à calma inquietante de "No Surprises", não há uma composição a ser considerada apenas mediana. Em se tratando de Radiohead, temos, claro, músicas com belos e trabalhados arranjos, como "Subterranean Homesick Alien" e "Let Down". As não menos soberbas "Karma Police" e "The Tourist" são um misto disso tudo. Ao final, sensações se intercalam; solidão, desespero, esperança, fé... Via pela ótica e pelo momento.




"Ok Computer" pode ser classificado de diversas maneiras. Se for para tachá-lo como o último grande disco do milênio passado, é válido. A prova de que algo com extrema qualidade pode atingir o grande público? Justo. Ou seria apenas um fantástico conjunto de músicas? Ok. Ok, people. Ok, world. Ok, computer! A máquina pode estar vencendo, porém, a depender do Radiohead, nossos ouvidos já foram salvos.


NOTA: 10/10. 




Algumas curiosidades:

* No encarte, na letra de "Airbag", há um código: "1421421". A especulação é que se trata de uma referência a um livro de Douglas Adams, que conclui que o "significado do universo é 42". O número 1 seria a repetição da pergunta: "Qual o significado do Universo?"

* Na letra de "No Suprises", a referência é "ocmcocmcocmk", que pode dizer respeito ao monóxido de carbono (CO), de que Yorke fala na música.

* As letras do disco estão escritas de maneira desordenada. A única exceção é a de "Fitter, Happier", o que indica que apenas as máquinas são organizadas.

* Na parte de trás do encarte, há um número: 18576397. Os músicos negam, mas trata-se do momento exato em que o disco foi concluído: 18H57 de 6/3/97.

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