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DICA DE FILME

"AMORES ETERNOS" (2013)




A mescla de romance com vampirismo ainda sofre da "síndrome Crepúsculo", onde esses dois elementos passaram a ser vistos com maus olhos após o furacão da referida saga de Edward e cia. Mas, como toda regra gera suas honrosas exceções, "Amores Eternos", mais recente filme do sempre insano Jim Jarmusch, vem mostrar que esses seres noturnos podem ter inquietações bem mais interessantes e intimistas.

Os dois protagonistas dessa produção já viveram bastante, estão juntos há muito tempo e parecem estar confortáveis em suas vidas eternas. Ela, bem resolvida, buscando sangue bom para beber com um antigo amigo, e ele, buscando o mesmo sangue com a ajuda de um médico num hospital, tem um verdadeiro estúdio de música em sua casa, onde coleciona vinis, guitarras e grava diversas composições suas (todas bastante sombrias, e, porque não dizer, góticas). Porém, algo o inquieta, e não se trata de um amor adolescente mal resolvido. Sua impaciência vem dos que ele chama "zumbis", uma provável analogia às pessoas atuais.




Ele recorda-se com nítida depressão de épocas passadas, e esparsamente se diverte ao lembrar de personagens pitorescos, como Lord Byron. Mas, entristece-se com facilidade quando pensa em mentes brilhantes que foram perseguidas na história, como Galileu, Copérnico e Darwin. É daí que surgem as inspirações para compor suas músicas. O casal principal, inclusive, não se intimida com a tecnologia moderna. O modo como a internet e outros meios de comunicação recentes são usados no roteiro são bastante críveis.

"Amores Eternos", é bom que se diga, é um filme de contemplação, mais precisamente, de admiração a muitas formas de arte. O longa presta reverência não só à música, mas à literatura e ao próprio cinema. São cenas que, muitas vezes, parecem ser personagens próprios na estória. Numa hora, vemos o panorama de uma centena de livros bem arrumados e cuidados, e em outra, um número musical, onde os protagonistas dançam, e se fundem ao cenário, com muita plástica e beleza.




As críticas à sociedade contemporânea também aparecem, porém, poderiam ter sido melhor exploradas pelo enredo. Questões óbvias como a solidão e a ganância são identificáveis, no entanto, não têm o peso necessário para fazer crer que incomodam realmente o casal de vampiros, o que poderia fazê-los rever seus conceitos, recorrendo, por sinal, a métodos antigos para sobreviverem (algo que fica bem claro na sequência final do longa). Esse, contudo, é um momento isolado, e não algo contínuo ao longo da narrativa.

Mas, isso, necessariamente, não tira os outros méritos do filme, principalmente se levarmos em consideração que o estilo de Jarmusch nunca foi o de contestador de valores, mas o de expositor de um ou outro inconformismo. Que a ação, portanto, fique a cargo do espectador. De qualquer jeito, "Amores Eternos" não deixa de ser uma produção interessante. Evidente que os apreciadores de música e de literatura irão conseguir apreciá-lo mais, só que a estória, mesmo se estendendo um pouco além da conta, sustenta-se bem, com a ajuda dos atores principais, com destaque para Tom Hiddleston (o para sempre lembrado Loki, da cine-série Thor).




Trata-se, por fim, de mais um bom filme com o estilo pouco usual de Jim Jarmusch, que já nos presenteou com produções melhores, é verdade, mas que ainda continua realizando um bom exercício de linguagem de se ver.


NOTA: 8/10.

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