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DICA DE FILME

"MAELSTRÖM" (2000)




Um peixe ensanguentado e à beira do abate resolve contar uma estória. Daí, somos levados a uma clínica, onde uma jovem está fazendo um aborto. Isso, ao que mais possa parecer incrível, é apenas o começo de "Maelström", primeiro e melhor filme do cineasta canadense Denis Villeneuve, responsável por "Incêndios" e os recentes "Os Suspeitos" e "O Homem Duplicado". À primeira vista, tudo em "Maelström" parece estranho, do "narrador" ao desenrolar do enredo (este, pouco linear, mas que possui um propósito em ser assim). Não é mero estilo ou enfeite.

Em muitos aspectos, esse longa traça paralelo com produções como "Vocês, os Vivos" e "Holy Motors". Em todos eles, imagens e sequências estão desconexas, mas, juntando-as, fazem parte de uma unidade. E, por trás dessa harmonia, uma ideia ou mensagem muito nítidas e pertinentes. Assimilação e reflexão, aqui, são continuadas, num exercício onde peças se encaixam, e, o que antes era aleatório, passar a fazer sentido.




"Maelström" é isso, e bem mais. Assim como nos outros filmes citados, ele é uma experiência sensorial. Não à toa, o diretor usa alguns artifícios, como enquadrar o rosto dos personagens bem de perto, capturando suas reações de maneira mais intimista, ou então a utilização da cor azul em boa parte das cenas. Essa representação remete diretamente à água (outro elemento constante na trama), e que pode significar um símbolo de purificação ou redenção.

Inclusive, a palavra redenção caracteriza bem a produção. É justamente isso o que busca a personagem principal, que, por um longo período, sente-se culpada pelo aborto que fez. Porém, esse evento não será seu martírio central. A ele, irão se seguir outros, que a farão se sentir pesadamente responsável por suas ações, e querer se punir a todo o custo. Trata-se de alguém incomodado com sua própria consciência, e até mesmo de sua humanidade. O título traduzido do filme ("redemoinho") vem bem a calhar quando se tem essa percepção. Um ciclo sem fim, com suas eventuais causas e consequências.




Mesmo com tantos significados, "Maelström" não se perde como cinema. Técnica inventiva, boas atuações, direção segura, trilha sonora inclassificável e edição eficiente são as qualidades que mais saltam à vista. No entanto, ao que se possa parecer, ele não é um filme difícil que quer ser intelectual ou algo semelhante. Sua aparente loucura nunca é incômoda. Por fim, é uma bela produção de um diretor criativo, realizada com sensibilidade e até certo bom humor. Indispensável.


NOTA: 10/10.

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