Pular para o conteúdo principal
DICA DE FILME

"SCARFACE" (1983)




Pode se dizer o que quiser de Al Pacino, desde que ele é caricato até um perfeito canastrão. Mas, invariavelmente, quase sempre ele se estrega a seus papéis de uma forma tão marcante que acaba criando uma espécie de identidade.

Dito isto, é justamente na atuação dele a maior virtude nessa famosa refilmagem de "Scarface". Porém, é também a responsável por alguns de seus deslizes. O personagem de Tony Montana, um imigrante cubano que forma, gradativamente, um grande império do tráfico de drogas, caiu como uma luva no ator, mas alguns exageros cometidos por ele impedem o filme de ser um clássico absoluto.

Mesmo assim, a produção é dirigida com maestria por Brian De Palma, cujo argumento do roteiro foi feito por Oliver Stone. Isto é, temos aqui um time de peso, que, à época, não media esforços para que o resultado não fosse menos do que brilhante.

O resultado é o que vemos nas quase três horas de filme: um retrato cru, às vezes, irônico, denso e bastante violento do mundo da máfia. Não há moderações: Montana cospe palavrões a cada minuto, não tem pudor em eliminar rapidamente seus adversários e ainda se esbalda em montanhas de cocaína.




Tais cenas, inclusive, foram motivo para a censura ao filme em diversos países. Afinal, é uma produção em que a violência está bastante palpável, onde não faltam tiroteios e até uma sequência que envolve uma serra-elétrica. Brutal e nem um pouco sutil.

No entanto, "Scarface" não é um filme tão sacal quanto possa parecer. As motivações dos protagonistas são bem críveis, tendo em seus métodos somente algo a se questionar. São os típicos personagens amorais, que nada têm a perder, vivendo suas existências no limite, e não poupando, sequer, os que amam.

Sim, pois, apesar do temperamento explosivo, Montana ama uma pessoa: Elvira Hanckoc, a esposa de seu chefe. Mas, logo após conquistá-la, vai afastando-a pouco a pouco com seu comportamento tempestuoso e agressivo. O que lhe resta é o seu dinheiro, a sua mansão e várias fileiras de cocaína.




A produção ainda aproveita para tecer algumas boas avaliações dos meios políticos, que, não raro, são antro de bandidos tanto quanto os próprios mafiosos. No campo técnico, "Scarface" é formidável, principalmente na sua antológica sequência final, que sintetiza bem tudo o que o filme quer passar.

Em relação às atuações, destaque, óbvio, para Al Pacino (apesar de todo o seu histrionismo característico) e Michelle Pfeiffer, que faz da sua personagem uma mulher determinada, e um dos únicos pontos fracos de Montana.

De um aspecto geral, até que o filme envelheceu bem. Existem alguns excessos, é verdade, mas, que não poderiam ser evitados, já que fazem parte da persona dos três principais envolvidos na produção: ator, diretor e roteirista; Al Pacino, De Palma e Stone para os mais íntimos. Com esses egos em jogo, até que o resultado saiu um tanto "leve".




Trata-se, enfim, de um dos filmes mais relevantes do gênero gângster.

"... E vocês o que são? Bons? Vocês não são bons. Vocês apenas sabem como esconder. E mentir. Eu não tenho esse problema. Sempre digo a verdade. Mesmo quando minto!"
(TONY MONTANA)


NOTA: 9/10.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Lista

10 Melhores Discos Nacionais de 2017 (Até Agora)


Sim, meus caros, não está nada fácil. Achar os "10 melhores discos nacionais lançados em 2017 (ate agora)" demandou bastante tempo, mesmo porque, até no meio do cenário indie, anda rolando uma certa mesmice em termos de sons e atitudes, com bandas soando rigorosamente iguais umas as outras. Está faltando identidade e carisma até na nossa música alternativa, infelizmente. Mas, lamentações à parte, esta é uma pequena lista que se propõe a ser um guia atual para quem deseja saber o que anda acontecendo de bom por aí. 
Torcer, agora, para que os próximos meses sejam mais produtivos no sentido de termos mais lançamentos bons como estes.
🎵


10°
"Feeexta"
Camarones Orquestra Guitarrística


"Canções Para Depois do Ódio"
Marcelo Yuka


"Triinca" Triinca

"Galanga Livre" Rincon Sapiência

"Vênus" Tupimasala
Lista Especial Final de Ano

20 MELHORES DISCOS DE 2017


Este ano, em termos de música, foi um pouco melhor do que 2016, indiscutivelmente. Novos artistas mostraram trabalhos maravilhosos (Triinca, Royal Blood, Rincon Sapiência, Kiko Dinucci), ao mesmo tempo que alguns da velha guarda voltaram com tudo, em discos que parecem de início de carreira (Accept, Living Colour). 
Além disso, tevemos obras das mais variadas teméticas, desde a banda instrumental Macaco Bong fazendo uma reeleitura pra lá de insana do clássico "Nevermind", do Nirvana, até artistas como Rodrigo Campos, Juçara Marçal e Gui Amabis, que, com "Sambas do Absurdo", emularam à perfeição a obra do filósofo Albert Camus. 
O resultado desta excelente miscelânea sonora está aqui, numa lista com os 20 melhores discos lançados neste ano que passou, cada um com cheiro e gostos diferentes, mas, que, de forma alguma, são indigestos.
Bon appétit. 🍴

20º
"In Spades"
The Afghan Whigs


19º
"The Rise of Chaos…
Dica de Filme

"As Fitas de Poughkeepsie" (2007)
Direção: John Erick Dowdle.


A maldade humana já gerou filmes verdadeiramente perturbadores, mas, que, muitas vezes, são feitos de forma apelativa, sempre expondo mais violência, como numa forma de fetiche, do que propondo alguma forma de reflexão. Exemplos desse desserviço cinematográfico são muitos, e não vou citá-los aqui, porque só servem mesmo para alimentar mentes doentias. Porém, existem aqueles filmes que conseguem fugir dessa regra, e conseguem propor algo válido, ao mesmo tempo que assustam bastante. É o caso deste "As Fitas de Poughkeepsie".
Primeiramente, é bom que se diga que ele se trata de um falso documentário, usando a (hoje batida) técnica de found-footage, que consiste em apresentar filmagens de maneira amadora, aumentado o tom realístico da obra. O resultado, pelo visto, deu certo. Quando "As Fitas de Poughkeepsie" foi exibido pela primeira vez no conceituado Festival de Trapeze, em Nova Ior…