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DICA DE FILME 

"SENHORES DO CRIME" (2007)




David Cronenberg é um diretor de altos e baixos. Começou a carreira com uma quantidade razoável de filmes "B", e, depois, conseguiu se consagrar com o longa "A Mosca", refilmangem de um clássico cult dos anos 50. A partir daí, foi só ladeira abaixo, com poucos momentos dignos de nota ("Gêmeos - Mórbida Semelhança" e "Crash - Estranhos Prazeres"). Somente no início dos anos 2000, com "Spider - Desafie sua Mente" e "Marcas da Violência", que ele voltou a mostrar um cinema vigoroso, para, logo após, voltar a fazer filmes medíocres; caso de "Um Método Perigoso" e "Cosmópolis".

Pode-se, então, dizer que "Senhores do Crime" é uma produção de meios termos. Longe de ser um defeito, é uma característica que eleva muito a qualidade desse filme, já que nele Cronenberg doma seus instintos em expor bizarras e repugnantes cenas, para se focar numa provocação mais sutil e intuitiva. E, ao mesmo tempo, temos aqui imagens bastante perturbadoras, mas sem serem nem um pouco apelativas ou gratuitas. É Cronenberg contando, de forma bastante segura, uma estória muito boa.




Estória essa que conta a trajetória de duas vidas que se cruzam em decorrência da tragédia de uma terceira. Anna trabalha como parteira num hospital, e, em pleno Natal, presencia a morte de uma jovem após o nascimento do seu filho. Querendo dar a notícia do falecimento pessoalmente a familiares ou amigos da moça, passa a pesquisar sobre ela. Para isso, utiliza-se do diário que a jovem portava, mas que está escrito em russo. Por isso, pede ao seu tio que traduza o diário. A medida que vai descobrindo a realidade, Anna, involuntariamente, envolve-se com perigosos mafiosos, e, em especial, um de seus mais violentos e misteriosos funcionários, Nikolai.




O roteiro, bem enxuto e sem grandes furos, é conduzido com maestria por Cronenberg. A própria máfia é tratada com ironia, onde a mesma promove os corriqueiros assassinatos e negociatas em nome do poder, mas fazem ações que beiram o ridículo, como colocar seus negócios em risco devido a boatos que envolvem alguns de seus membros. Os chefões são, propositadamente, caricatos. Mas, há aí também críticas mais implícitas, como, por exemplo, o tratamento dado às mulheres, vistas como meros objetos nesse meio. E, ainda podemos enxergar a nossa eterna busca por justiça diante de fatos revoltantes, mas que, a bem da verdade, na maioria dos casos, está fora do nosso alcance.

É preciso que se dê crédito aos atores que, em "Senhores do Crime", estão ótimos, desde Naomi Watts até Vincent Cassel. Porém, aqui os holofotes recaem sob Viggo Mortensen. Corajosamente, tentando se desvencilhar de seu eterno papel como Aragorn, em "O Senhor dos Anéis", Mortensen nos oferece um personegm cheio de dubiedades, que, distante do que parece ser, não se mostra confiável, mesmo poupando a vida de Anna muitas vezes. Sua personalidade, uma mistura de calma com explosão controlada, é perfeitamente encarnada pelo ator, que ainda protagoniza uma das melhores sequências do cinema recente, onde, numa sauna, ele luta pela sobrevivência contra dois mafiosos, tendo como única arma seu próprio corpo.




"Senhores do Crime" tem algumas falhas no roteiro, mas que são aqueles pequenos momentos (inevitáveis, até) para dar mais "dramaticidade" à trama. Nunca chegam a atrapalhar o resultado final, que, sem dúvida, está acima da média. E, seria bom Cronenberg usar mais esse viés de encontrar bons roteiros e atores competentes, pois a julgar pelo último recesso criativo que passou, nos anos 90, ainda passaremos muitos anos até vermos um outro filme seu com a qualidade de "Senhores do Crime".


NOTA: 9/10.

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