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DICA DE LIVRO 

"O MESTRE E MARGARIDA" 
(Escrito entre 1929 e 1940, e publicado entre 1966 e 1967)




O Diabo; ah, o Diabo...

Essa figura ímpar da nossa cultura... Amado e odiado em desiguais proporções, já foi personagem principal e coadjuvante em diversas manifestações artísticas, do cinema à literatura. "Fausto", do alemão Goethe, talvez seja a primeira obra literária que nos vem à cabeça quando se trata do coisa ruim e a partir deste, vender a própria alma em troca de dinheiro, poder e juventude virou mote para outros vários autores.

Mikhail Bulgákov, escritor soviético de grande importância para o século 20, fez uma obra em que o Diabo não é necessariamente o protagonista, mas que controla a narrativa de tal forma que passa a ser o responsável, direta e indiretamente, por todas as ações dos personagens. A estória, de um realismo fantástico fascinante: a chegada do Demônio e uma inusitada comitiva (incluindo em gigantesco gato que fala) a uma Moscou imersa em pleno comunismo.




Mas, não nos enganemos... O livro vai bem mais além do que um argumento interessante.

É bom que se diga que Bulgákov teve receio em publicar a obra em vida, devido a perseguições do regime de Stálin. Então, ele, num primeiro momento, destruiu os manuscritos iniciais de "O Mestre e Margarida", e depois reescreveu tudo, sob a revisão da sua esposa. Foram árduos 11 anos para concluir a obra. E, detalhe: ela só veio a ser publicada 26 anos após a morte do escritor, o que claro, chocou o público, que veio a descobrir tão tardiamente tão bela obra.

Devido às perseguições que sofreu, Bulgákov, passou para a sua obra máxima muitas referências sobre a falta de liberdade do cidadão e sistemas autoritários como um todo. Não à toa, o Diabo, num determinado momento, diz que o mestre (personagem que dá nome ao livro), que estava internado num hospício, iria deixar de existir somente porque seus documentos seriam destruídos. Nada mais comum em regimes totalitários em relação a desaparecidos políticos. Isso faz lembrar, inclusive, da estória dos documentos que eram reescritos em "1984", de George Orwell.




Mas "O Mestre e Margarida" não é somente referência e alegorias da própria sociedade em que o autor do livro vivia. Ele também expressa lados humanos, especialmente a cobiça, a inveja e a avareza. O Diabo, como observador atentíssimo, vê a decadência moral das pessoas, e, se entristece.

Com o avançar da leitura, vamos vendo que o mestre e o Demônio narrador possuem muitas similaridades. Estão cansados. Exaustos. Não querem a luz, e sim, a paz. Mas enquanto isso, a comitiva que veio acompanhando o Demônio leva aos habitante de Moscou a todo tipo de destruição e loucura. Uns até tentam duvidar do que seus olhos veem, conservando um cômodo ceticismo. Outros, irremediavelmente jogam por terra seus conceitos, até então, inabaláveis.




Este não é, de forma alguma, um livro difícil, porém, em muitos momentos, sofrido. A busca dos protagonistas por algo a mais do que lhes é oferecido em vida é tocante. Um vazio, que é preenchido com riquezas materiais. O amor, que é reprimido em nome de convenções sociais. A fé, que é abolida num mundo racionalista. E, a consciência, que se extingue junto com todos esses fatores. Do essencial, pouco ou nada fica.

"O Meste e Margarida" é um livro de alerta. Um grito em prol de nossa humanidade. Por vezes, cínico e mordaz, mas, no geral, honesto e cativante.

CURIOSIDADE:
Após ler este livro, Mike Jagger teve a inspiração de compôr a música "Sympathy For The Devil", uma das mais controversas e melhores músicas dos Rolling Stones. "Prazer em conhecê-lo / Espero que adivinhe meu nome / Mas o que está te intrigando / É a natureza de meu jogo."




NOTA: 10/10.

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