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Dica de Disco

"Pride & Glory" (1994)
Artista: Pride and Glory.


Zakk Wylde sempre foi um guitarrista bacana. Sempre! Seja na banda do madman Ozzy Osbourne, seja na sua própria, o Black Label Society, ele raramente decepciona. O que poucos conhecem é esse projeto aqui, feito após a turnê do disco "No More Tears", do Ozzy. Originalmente, chamada de Lynyrd Skynhead, foi rebatizada para Pride & Glory, lançando um único disco em 1994.

E, que discaço!


Pra quem é familiarizado com os trabalhos de Wylde, sabe que o cara tem os dois pés fincados no southern, aquele rock sulista, cadenciado, bem típica, com boas doses de blues e peso. E, é isso o que encontramos logo na primeira faixa, "Losin' Your Mind". Com dedilhados de banjo, a música tem uma qualidade absurda, riquíssima em influências. Um cartão de visitas pra ninguém botar defeito.

O início de "Horse Called War" é pura distorção, pra desembocar numa típica música à lá Zakk Wylde, e sua voz rouca, perfeita pra esse tipo de som. Empolgante, no mínimo! Mas, o disco tem as suas calmarias. É o que encontramos na terceira faixa, "Shine On" (pelo menos, em seu início). Porque, poucos segundos depois, um poderoso som de slides de guitarra com gaitas gritando explode na caixa de som. Mais uma canção de imensurável qualidade.


Mas, claro, podemos também encontrar ecos de outras grandes influências no som do grupo. As guitarras insanas do final de "Shine On", por exemplo, ora lembram Black Sabbath (pelo peso), ora Guns n' Roses (pelas levadas galopantes). A quase acústica "Lovin' Woman" vem em seguida para dar um respiro, uma amançada, um alívio depois do disco transpirar tanta energia nas três primeiras faixas. Música muito bonita, por sinal.

Contudo, o peso precisa continuar, e "Harvester of Pain", mesmo sendo um pouco baladeira, tem bastante. Incrível como eles conseguiram imprimir uma unidade em cada canção, sem exagerar a mão em nenhum momento nessa primeira parte do disco. Sombria e amedrontadora são sinônimos que caem bem em "The Chosen One"; executada de forma comedida, explode no refrão. Wylde, mesmo sendo considerado limitado como vocalista, canta muito bem nessa canção, justiça seja feita


"Sweet Jesus". Que bela composição. Dedilhados que remetem ao bom e velho Floyd, mas, com pitada bluseira, evidentemente. Percebam: chegamos à metade do álbum, e quase não se percebe. Nada que possa ser considerado descartável. Nada fora do lugar. "Troubled Wine" faz jus à veia Lynyrd Skynyrd. Com muita cadência, e uma interpretação emocionante, trata-se de um autêntico southern rock. God bless Zakk!

E, o que dizer de "Machine Gun Man"? Relaxante? Envolvente? Viciante? Tudo isso. E, até um pouco mais. Já, "Cry Me a River" também é mais uma balada, também é bonita, também é bem executada. Mas, não se diferencia, não tem luz própria. Primeira bola fora após 9 faixas impecáveis, diga-se! Então, não sejamos chatos; o álbum tem desconto de sobra! E, até que a tentativa de soarem Creedence nessa música é legal, convenhamos.


Aí, chega "Toe'n the Line", e eis mais uma baita canção! Dos minimalistas sons na bateria, aos incríveis riffs de guitarra, passando pelos interessantes efeitos vocais, a música é energia, é potência, é ebulição. Ao vivo, é maravilhosa! Lembrando um Stevie Ray Vaughan mais pesado, "Found a Friend" cumpre bem o seu papel de ser mais um blues no disco, apesar de, assim como "Cry Me a River" não ter nada de muito especial.

"Fadin' Away", mesmo sendo mais uma balada, tem pontos positivos, uma sonoridade mais singular, e Zakk chega a emular os bons momentos de um Eddie Vedder. Singela canção. "Hate Your Guts" tem sonoridade bem regional, encarnando e prestando reverência aos negros tocadores do velho Mississipi. Ótima faixa, e que fecha o trabalho de forma mais do que satisfatória. Ah, e a versão japonesa do álbum ainda traz uma fabulosa versão de "The Wizard", cover do (adivinhem) Black Sabbath!


Apesar de um ou outro ponto que poderiam ter sido limados do disco, sem nenhuma falta para o conjunto da obra, este ainda continua sendo um tremendo álbum de rock dos anos 90, no mesmo nível dos melhores momentos de um Black Crowes (o que não é, nem de longe, pouca coisa). Portanto, pra quem não conhece essa faceta do grande Zakk Wylde, faça um favor a si, e procure essa preciosidade. Satisfação garantida!


Nota: 9/10.

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