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Dica de Disco

"Sol Invictus" (2015)
Artista: Faith no More.


Depois de tantos anos de bons serviços prestados ao rock, fica difícil imaginar que o Faith no More ainda lançasse algo de relevante. Mas, incrivelmente, eles resistem à passagem do tempo, e colocaram no mercado um discão. Isso se deve a uma constatação simples: a banda continua com a mesma pegada de antes, ou seja, um som extremamente rico em nuances, mas, bastante esquizofrênico e caótico, o que dá a possibilidade do ouvinte sempre achar algum detalhe interessante toda vez que escutar o álbum.

Um trabalho, inclusive, que começa como uma balada "pero no mucho": a bonita, porém, sombria "Sol Invictus". A música que dá andamento ao disco, "Superhero" lembra os melhores momentos do clássico "Angel Dust". Portanto, esperem muita distorção, muito peso, e a interpretação afetada de Mike Patton, querendo ou não, a mola motriz do grupo. O bom desse mais novo álbum é que parece ser uma evolução natural de tudo o que o Faith no More já fez de bom, além de sepultar, de vez, o estigma de ter sido um dos precursores do new metal.



Por exemplo: por mais que as novas gerações tentem, elas dificilmente conseguiriam fazer uma poderosa composição como "Sunny Side Up". Não é choro emo; é drama autêntico corroendo as entranhas. A mesma dilaceração que ouvimos em "Separation Anxiety". A parte final da canção, no entanto, tenta acalmar as almas em chamas. Lembra as boas músicas new waves da década de 80. É quase um revival, mesmo. Em se tratando de uma banda que já regravou, de maneira brilhante, Commodores e Bee Gees, não é de se estranhar.

"Cone of Shame" traz ainda mais esse clima. Batida seca, voz grave de Patton dando a entender que estamos num pub esfumaçado, conversando filosofias profundas. Isso só na introdução, para depois a música explodir de forma arrebatadora. Não tem jeito; o Faith no More, pelo menos, até agora, conseguiu fazer mais um excelente trabalho. "Rise the Fall" traz uma levada hipnótica viciante, e, facilmente, identificamos os muitos copiadores que tentaram, até hoje, em vão, usurpar o trono de Patton & cia. Mais uma bela canção, diga-se.



Eis que chega "Black Friday", e, com ela, a parte mais fraca do álbum. Ruim, não é, mas, também não tem nada que já não tenhamos ouvido a banda fazer aqui. Um pouco do "mais do mesmo", sem muitas novidades. Pior que "Motherfucker" vai nessa mesma linha. Ora, o Faith no More sempre prezou por um som louco, insano, perturbador, sarcástico, incômodo. Essas duas músicas ficaram lineares demais, iguais em demasia, quebrando um pouco a ótima sequência que o álbum vinha apresentando até então.

Chegamos quase no final para contemplarmos "Matador". Não é das melhores composições da banda para este disco, mas, pelo menos, é mais poderosa do que as duas anteriores. E, finalmente, o ocaso, com a derradeira "From the Dead". Emulando mais uma vez um som cadenciado e viajante, acerta bem ao terminar com algo relaxante, e até triste, por assim dizer. Não é, honestamente, nenhum grand finale, mas, mesmo assim, uma ótima música.



O problema, além da parte final menos inspirada, talvez seja também a curta duração do disco, visto que os petardos do Faith no More chegavam fácil na casa dos 60 minutos, ao passo que aqui, temos pouco mais de meia hora de duração. De qualquer jeito, por tudo o que a banda já vez, não esperava uma volta tão boa deles. Caso queiram fazer mais um álbum, provavelmente, será ainda melhor do que este, e até rivalize com "Real Thing" ou "Angel Dust", quem sabe?

No momento, é aproveitar um belo e honesto trabalho de um grupo veterano que ainda tem muito gás pra queimar.


Nota: 8/10.

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