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Dica de Filme

"Boyhood - Da Infância à Juventude" (2014)
Direção: Richard Linklater.


O hype, sempre ele, engana fácil, fácil. Algo é colocado nas alturas, e, logicamente, a expectativa cresce. E, quando vemos, de fato, do que se trata, surge uma certa decepção. "Boyhood", por exemplo, não chega a ser um grande hype, nem tão pouco é uma decepção, mas, é bem aquém daquilo que andaram propagando sobre ele. O negócio, então, é assistir ao filme de maneira despojada. Funciona melhor.

O bom é que dá pra relaxar durante a projeção do longa, pois, ele é bem fluido, a estória se desenrola bem calma, simples. E, por isso mesmo, competente. O maior atrativo aqui é o espectador contemplar a vida, e suas nuances, seus percalços, suas singularidades. Nesse aspecto, o filme se assemelha muito a "Azul é a Cor Mais Quente". Ambos são longas produções, cada uma beirando as três horas de duração, mas, o que está em pauta é o cotidiano quase "banal" dos personagens.




Se fosse pra fazer uma sinopse de "Boyhood", o correto seria dizer que se trata quase de um documentário ficcional sobre as miudezas de um garoto durante o seu rito de passagem, de criança até a idade adulta propriamente dita. E, são esses pequenos detalhes que fazem a diferença na "trama". As constantes mudanças da família, os questionamentos sagazes de Mason (o protagonista), a necessidade de competitividade na sociedade americana, etc.

Por sinal, o diretor Linklater é responsável pela trilogia "Antes do Amanhecer"/"Antes do Pôr-do-Sol"/"Antes da Meia-Noite". Portanto, esperem muitas cenas baseadas nos diálogos, e em constantes alfinetadas, na maioria, coerentes. Num determinado momento, vemos o pai de Mason comentando sobre a desnecessária invasão ao Iraque, e em outra ocasião, o novo namorado de sua mãe contanto o que viveu naquele país, como soldado dos EUA.




Porém, o roteiro de "Boyhood", algumas vezes, exagera um pouco. Na ânsia de ser o mais natural possível, certas situações acabam sendo forçadas, quase "fabricadas", como a militância política do pai de Mason por Barack Obama. Em outras, reforça esteriótipos, como o do garotos que só pensam em sexo, por exemplo. Inclusive, o filme demora cerca de meia hora pra engrenar de vez, e o faz, justamente, quando foge no natural, apresentando o conflito com o padastro alcoólatra do menino.

Essas "forçadas" na estória vão aparecendo aqui e acolá, não chegando a estragar o prazer de assistir "Boyhood", mas, que poderiam ter sido evitadas com um tanto mais de feeling narrativo. Felizmente, as qualidades dele são maioria. Obviamente, numa produção assim as atuações são essenciais para o bom andamento das coisas, e os atores se saem muito bem. Desde os veteranos Ethan Hawke e (principalmente) Patrícia Arquette (excelente) até o jovem Ellar Coltrane.




Claro, o fato da produção ter sido filmada no decorrer de 12 anos (acompanhando o crescimento e amadurecimento dos próprios atores) ajudou bastante nessa interação, quase uma inteira cumplicidade entre os envolvidos. E, outra característica marcante aqui é trilha sonora, pontuada por muito pop e rock alternativo, formando momentos realmente agradáveis na tela. O início, trazendo Mason ainda criança deitado, ao som de Coldplay, comprova isso.

Mesmo não sendo tão espetacular quanto se propagandeou por aí, "Boyhood" é um verdadeiro achado no atual cinema norte-americano. Podemos até dizer que se tratou de um projeto audacioso, e que cumpriu bem o seu papel de expôr as singularidades dia dia-a-dia que nos cerca; coisas que nos dão experiência e que nos fazem enxergar a vida de maneira diferente. Às vezes, sem grandes conflitos, mas, com uma boa inquietação de encontrar "algo mais".

Nó, portanto, somos retratados em Mason: uma criança, inevitavelmente, obrigada a amadurecer, porém, que não se contenta com o que é oferecido. Visão bonita, e até um pouco simplória, mas, muito sincera.


Nota: 8/10.

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