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Dica de Filme

"Através das Oliveiras" (1994)
Direção: Abbas Kiarostami.


O cinema iraniano sempre demonstrou ser possuidor de uma beleza singular. Do antigo "A Maçã" até o recente "A Separação", boa parte dos filmes desse país parecem tocar de maneira profunda no âmago do ser humano, buscando suas inquietações, mas, dotando seus personagens de virtudes quase ingênuas. Kiarostami é um dos cineastas que mais representa essa característica. Pra quem já assistiu o poderoso "O Gosto da Cereja", sabe do que estou falando.

E, "Através das Oliveiras" é mais um de seus belos trabalhos. No começo, quase em estilo documental, vemos um cineasta fazendo uma seleção no meio de muitas moças para saber quais delas integrarão seu próximo filme. De cara, nota-se algo diferente: ele parece ter um afeto imenso pelas pessoas, e trata todas as mulheres que estão ansiosas para participarem de sua produção como muito respeito e atenção.



Só que isso não é uma impressão inicial que se dissipa ao longo do tempo. Sempre que ele encontra pessoas do vilarejo onde está filmando, ele pergunta sobre a vida delas, quer realmente saber os dramas que estão passando. Importa-se com elas, enfim. Empatia pura e simples. Quando sabemos que o lugar foi devastado por um terremoto recentemente, a preocupação do cineasta com as pessoas sobreviventes que ainda estão morando ali, tona-se ainda mais tocante e verdadeira.

Nesse cenário, o filme se foca em um personagem específico: Hussein, e sua quase obsessão em cortejar uma garota pela qual ele está apaixonado. Suas declarações a ela, e seus desabafos ao cineasta, que se torna seu amigo, são desconcertantemente sinceras. Logo se percebe que Hussein representa uma vaga esperança, um sopro qualquer de vida, que quer continuar sua jornada, mesmo depois de uma tragédia.




Interessante perceber a forma de Kiarostami mostrar os bastidores do filme que está sendo feito com os moradores locais. Muitas das cenas precisam ser refeitas porque as pessoas, simplesmente, esquecem suas falas. Entre um "take" e outro, muitas estórias se desenrolam na vida pessoal dos envolvidos, e a repetição de tais cenas expõe muito da personalidade, muitas vezes simples, de quem está tentando atuar de forma amadora.

Bom exemplo disso é quando Hussein tem que gravar com a garota que quer se casar. Errando, propositalmente, suas falas, isso faz com que tenha mais tempo para conversar com ela, e tentar convencê-la a ficarem juntos. É como se Kiarostami nos quisesse dizer que no meio de poucos segundos que "vemos na tela", muitos acontecimentos acontecimentos decisivos na vida das pessoas ocorre, sem que nos demos consciência disso, simplesmente, porque não nos importamos.




"Através das Oliveiras", assim como os melhores filmes iranianos, tem a seu favor o fato de transformar o "comum" em algo maior. Objetos de reflexão, até mesmo naqueles fatos mais vulgares, compõem um retrato ao mesmo tempo particular e universal das sutilezas e necessidades que o ser humano possui, mesmo sem, às vezes, notar isso.


Nota: 8,5/10.

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