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Filme Mais ou Menos Recomendável

"Os Oito Odiados" (2015)
Direção: Quentin Tarantino.


Quem é fã de cinema moderno, com certeza, gosta (pelo menos, um pouco) do trabalho de Tarantino. Não é pra menos, afinal, suas duas primeiras empreitadas na sétima arte são filmaços: "Cães de Aluguel" e "Pulp Fiction", produções que, praticamente, redefiniram o cinema independente dos anos 90. Só que depois disso, foi ladeira abaixo (os insossos "Jackie Brown" e "Django Livre" são prova disso). Ok, no meio tínhamos um espetacular "Bastardos Inglórios", um trabalho realmente memorável. O que deixou este "Os Oitos Odiados" com uma carga um tanto pesada para provar que Tarantino não perdeu a mão. E, ele quase conseguiu.

Sim, pois, seu mais novo filme tem momentos muito bons, é verdade, mas, não se segura bem o tempo todo. O começo, mostrando uma bela (porém, inóspita) paisagem, parece tentar mostrar que Tarantino está mais calmo, digamos assim, mais contemplativo. A sequência se encerra de forma bem poderosa, com uma imagem de cristo crucificado em meio à neve. Só que aí os problemas começam a aparecer, mais precisamente na apresentação dos personagens. É quando conhecemos os três primeiros dos oito odiados. E, sinceramente, são muito fracos.




O Major Marquis Warren parece estar ali com o único intuito de servir como alvo de piadas racistas. Tudo bem que estamos falando da época da independência dos EUA, com os lados Norte e Sul muito bem representados, um pela parte "branca" da América, e a outra, pela parte "negra". Alguns dos diálogos são bem representativos para expôr a dificuldade que os negros viviam naquele tempo, no entanto, em muitos momentos, isso é esvaziado pela quantidade enorme de gracinhas com a palavra "criolo" que outros personagens usam. Acaba não sendo crítica, e somente incomoda.

Já, John Huth está lá para ser o "macho alfa" da trupe, aquele típico durão com muita força e pouco cérebro. Para completar esse primeiro instante de apresentações, temos a prisioneira Daisy Domergue, que Huth está levando para a cidade de Red Rock, pois lá ela será enforcada por assassinato, e ele está de olho na recompensa por levá-la presa. Ela também não acrescenta muito à história, só tendo alguma relevância no ato final do filme, onde descobrimos alguns segredos dela que, honestamente, não são nem um pouco extraordinários.




Na realidade, o que o roteiro da produção peca é em mostrar 8 pessoas amorais, verdadeiramente odiosas, mas, sem nenhuma espécie de carisma, ou algo a mais. Lembremos que o sr. Tarantino já nos presenteou, em outros tempos, com vilões do naipe de Vincent Vega e o Coronel Landa. Aqui, não passam apenas de um punhado de gente detestável, e nada mais, nenhum tempero a mais, nenhuma diferenciação a mais. Talvez, desses, só Joe Gage (o cowboy escritor) e Oswaldo Mobray (o carrasco) sejam os mais interessantes, não por acaso, os que são menos desenvolvidos na trama.

Por sinal, um aspecto que já se tornou marca nos filmes de Tarantino (a história dividida em capítulos), aqui, mostra um certo cansaço. Não tem motivo aparente para a narrativa ser contada assim, a não ser na parte final, onde alguns aspectos ocorridos antes do início da trama, são contados. E, isto acaba seno o ponto fraco da produção também, pois tirando meia dúzia de diálogos geniais, o restante é composto por falas superexpositivas, que acabam cansando, de tão óbvias. Isso alonga desnecessariamente o filme, que não tem história suficiente para preencher suas quase 3 horas, convenhamos.




Mas, "Os Oito Odiados" também possui aspectos muito positivos. O diretor, admitamos, sempre consegue realizar uma parte técnica estupenda em seus trabalhos. Da trilha sonora, à edição, passando por grandes e contemplativos planos, tudo é único, com a cara de Tarantino. Também, no final da narrativa, o Major Warren e Chris Mannix (aspirante a xerife), incrivelmente, ganham força dentro da história, fazendo, pelo menos, valer dois personagens que poderiam ter rendido bem mais. E, os alívios cômicos, também típicos do diretor, acabam sendo mais contidos, e, por isso mesmo, mais engraçados.

E, o que temos? Bem, "Os Oito Odiados", tristemente, tenho que admitir, é um trabalho menor na carreira de Tarantino. Está bem longe de seus melhores momentos, simplesmente porque não conseguiu dosar certas coisas (como desenvolvimento dos personagens), e exagerar em outras (diálogos repetitivos, por exemplo). É um filme assistível, sim, com seus mais de 160 minutos passarem até bem rápido. Mas, sem dúvida, não é o que de melhor o bom e velho Quentin pode oferecer. Fica pra próxima, então.


Nota: 6/10.

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