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Dica de Filme

"Aguirre - A Cólera dos Deuses" (1972)
Direção: Werner Herzog.


Em "Aguirre", vemos duas forças da natureza em ação. A primeira é muito bem explorada logo nos minutos iniciais, quando vislumbramos uma linda paisagem de uma montanha, mas, quando a câmera vai se aproximando, ela revela uma expedição de dezenas de pessoas. Imagem bela, porém, assustadora. Já, a segunda força da natureza presente aqui é mais metafórica: as próprias personalidades do diretor Herzog e o ator Klaus Kinski, ambos excepcionais em suas respectivas tarefas, porém, difíceis no convívio.

O roteiro é basicamente uma estória de sobrevivência num lugar inóspito. No entanto, nas margens, podemos observar fatos relacionados à ambição, ao poder e à loucura. O pretexto? Uma expedição espanhola em busca da lendária cidade de ouro El Dourado. O que temos? Colonizadores, supostamente civilizados e cristãos, tratando indígenas e negros como lixo humano, a cegueira do falso poder, a insanidade sobrepujando a razão, entre outras amostras, que poderiam muito bem ser repassadas para os tempos atuais sem nenhum esforço.




O fio narrativo está presente no diário do frei Gaspar de Carvajal, que acompanhou a expedição, com o intuito de "evangelizar" os impuros índios. É através da visão dele que acompanhamos o declínio de algo fadado ao fracasso e a gradativa destruição, física e psicológica, de cada um que acompanhou Aguirre em sua obsessão por El Dourado. O filme também se presta a excelentes simbolismos, principalmente, em sua parte final, quando inúmeros macacos invadem a balsa onde um tresloucado Aguirre divaga sobre as possibilidades de um novo mundo.

A produção é curta, apenas uma hora e meia, mas, consegue abarcar todos esses temas difíceis com bastante naturalidade. Claro, nesse aspecto, muito ajudaram as locações das filmagens, com, simplesmente, cinco ininterruptas semanas em plenas florestas do Peru e do Amazonas. Vivendo uma situação limite de forma real, os atores e figurantes do filme realmente se sentiram exaustos, esgotados, o que passou ainda mais veracidade na tela. Dá quase pra sentir o desespero de cada um em cada respiração ofegante e em cada olhar amedrontado.




Outro fator que ajudou muito, além da ambição de Herzog, foi a persona incontrolável de Kinski. Acidentes no set de filmagens era constante. Numa cena, por exemplo, quando Aguirre ataca soldados famintos que pegam bananas para comer, ele realmente machucou a cabeça de um dos figurante com uma espada! A sorte do indivíduo é que ele usava de verdade um elmo de ferro; caso contrário... Mas, essa personalidade perturbadora serviu como uma luva no personagem, fazendo deste um dos melhores trabalhos de Kinski, sem dúvida.




Mas, no final, a grande protagonista da estória é mesmo a natureza em todo o seu esplendor. Herzog usa um bela analogia para criticar o ser humano no que ele tem de mais ridículo e dantesco. Não à toa, o fidalgo que é proclamado imperador não passa de um bufão estúpido. Uma prova de que, não importam as condições, nem o ambiente, muitas pessoas conseguirão expôr o que de pior possuem. É o teste da situação-limite, onde o confronto consigo é inevitável (e muito pior do que contra as forças naturais de uma floresta).


Nota: 9/10.

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