Pular para o conteúdo principal
Dica de Documentário

"What Happened, Miss Simone?" (2015)
Direção: Liz Garbus.


É muito comum julgar de forma rasa e fácil todo e qualquer artista. Até por serem figuras públicas, eles expõem o que de melhor (e de pior) a sociedade possui. E, devido a isso, pagam, geralmente, um alto preço. Interessante notar, pois, que os mais recentes documentários sobre artistas, especificamente, os musicais, conseguiram dar isenção sobre as figuras retratadas, cabendo ao espectador de que forma julgar. Foi assim com as produções sobre Kurt Cobain e Amy Winehouse. E, é assim também com este documentário sobre Nina Simone.

Produzido pela Netflix, ele resgata um monte de imagens primorosas da carreira da cantora. Pouco ele fala sobre a sua infância, por sinal, mas o que diz é importante para entendermos como se formou a personalidade dela. Prodígio no piano desde pequena, Nina sempre foi destaque por onde passava. Só que ela parecia não se encaixar nem no mundo dos negros (que a colocavam para animar festas), nem no mundo dos brancos (onde teve algumas aulas para aprimorar suas arte). Em suma, foi um período de grande solidão pra ela, culminando com a rejeição numa conceituada escola de música por motivos racistas.




Acompanhamos, então, a dura vida que teve tocando e cantando em bares até ser "descoberta", e começar uma carreira de muitos sucesso, sem dúvida. Em determinado momento, Nina Simone era considerada a sacerdotisa do soul e do jazz, tamanho o seu prestígio. Ponto fundamental em sua vida (e do documentário) foi o relacionamento com Andy Stroud, com quem teve uma filha, Lisa, e que passou a ser o seu empresário. O documentário, mesmo sendo imparcial, não esconde o lado violento de Andy, com depoimentos da própria Simone de como era espancada constantemente pelo marido.

E, como já foi dito, é aí que reside um dos melhores aspectos da produção. Quem faz o julgamento das situações somos nós. Alguns, podem, simplesmente, culpar Nina por não ter se separado logo nos primeiros casos de violência, dando a entender que ela "precisava" disso, como que apara se punir de algo. Outros, no entanto, podem classificar isso como mais um caso de violência doméstica, onde o marido violento deveria ter sido denunciado e punido, mas, não foi. Note-se que nas entrevistas atuais que o documentário fez, todos demonstram um certo temor (medo?) de Andy, que ainda se encontra vivo.



Só que um dos momentos mais formidáveis de "What Happened, Miss Simone?" é quando ela começa o seu engajamento político. E, uma das partes mais polêmicas, também. Afinal, Nina, claramente, tinha muita raiva reprimida de todas as injustiças que passou e presenciou. Por isso, quando se envolveu na luta por direitos raciais nos EUA, não media concessões em afirmar que a violência era necessária para lutar pelos direitos civis, sim. Suas músicas passaram a ser mais diretas e críticas, e, óbvio, isso atrapalhou sua carreira comercial.

O documentário mescla muito bem a arte e a vida de Nina Simone com o período histórico que viveu. Não seria diferente, visto que, num de seus depoimentos, ela afirma que "uma artista de verdade se engaja com as causas de seu tempo". Esse furor, no entanto, sofre um duro golpe com o assassinato de Martin Luther King, um grande abalo para Nina. A partir disso, vemos ela mais deprimida, resolvendo se separar do marido e indo morar na África. Segundo a própria, a estadia no continente foi o melhor momento de sua vida.




E nisso, vamos acompanhando muitos altos e baixos a partir dessa viagem à África, onde ela chegou a passar necessidades na Suíça, mas, ergueu sua carreira em festivais no qual se apresentou. Porém, cada vez mais debilitada (descobriu-se, entre outras coisas, que ela sofria de transtorno bipolar), ela vai demonstrando um cansaço da própria vida, mesmo estando, aparentemente, mais tranquila. Pode-se dizer até que ela foi sendo "podada" por medicamentos até seu falecimento, que se deu em 2003. Vale frisar que, dois dias antes de sua morte, ela recebeu o certificado da escola de música que a havia sido  rejeitado vários anos antes.

"What Happened, Miss Simone?" é mais uma dessas produções de alto nível que estão conseguindo humanizar os artistas que retratam, sem fazerem julgamentos equivocados sobre a vida pessoal deles. Percebemos, ao final, que Nina Simone tinha muita força e uma grande vontade de ser feliz. Apenas, e tão somente isso. Como qualquer um de nós. Como qualquer um que erra e acerta em proporções iguais. Como qualquer um que exige seu respeito como ser humano. E, é isso o que a fez uma grande artista.


Nota: 9/10.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Lista Especial Final de Ano

20 MELHORES DISCOS DE 2017


Este ano, em termos de música, foi um pouco melhor do que 2016, indiscutivelmente. Novos artistas mostraram trabalhos maravilhosos (Triinca, Royal Blood, Rincon Sapiência, Kiko Dinucci), ao mesmo tempo que alguns da velha guarda voltaram com tudo, em discos que parecem de início de carreira (Accept, Living Colour). 
Além disso, tevemos obras das mais variadas teméticas, desde a banda instrumental Macaco Bong fazendo uma reeleitura pra lá de insana do clássico "Nevermind", do Nirvana, até artistas como Rodrigo Campos, Juçara Marçal e Gui Amabis, que, com "Sambas do Absurdo", emularam à perfeição a obra do filósofo Albert Camus. 
O resultado desta excelente miscelânea sonora está aqui, numa lista com os 20 melhores discos lançados neste ano que passou, cada um com cheiro e gostos diferentes, mas, que, de forma alguma, são indigestos.
Bon appétit. 🍴

20º
"In Spades"
The Afghan Whigs


19º
"The Rise of Chaos…
Dica de Filme

"As Fitas de Poughkeepsie" (2007)
Direção: John Erick Dowdle.


A maldade humana já gerou filmes verdadeiramente perturbadores, mas, que, muitas vezes, são feitos de forma apelativa, sempre expondo mais violência, como numa forma de fetiche, do que propondo alguma forma de reflexão. Exemplos desse desserviço cinematográfico são muitos, e não vou citá-los aqui, porque só servem mesmo para alimentar mentes doentias. Porém, existem aqueles filmes que conseguem fugir dessa regra, e conseguem propor algo válido, ao mesmo tempo que assustam bastante. É o caso deste "As Fitas de Poughkeepsie".
Primeiramente, é bom que se diga que ele se trata de um falso documentário, usando a (hoje batida) técnica de found-footage, que consiste em apresentar filmagens de maneira amadora, aumentado o tom realístico da obra. O resultado, pelo visto, deu certo. Quando "As Fitas de Poughkeepsie" foi exibido pela primeira vez no conceituado Festival de Trapeze, em Nova Ior…
Dica de Disco

"Shade"
2017
Artista: Living Colour


BANDA CLÁSSICA DOS ANOS 80 CONTINUA NA ATIVA, E ACABA DE LANÇAR UM DISCAÇO DE ROCK QUE VALE A PENA SER OUVIDO ATÉ O ÚLTIMO SEGUNDO
O Living Colour foi um dos melhores grupos de rock surgidos nos anos 80, e que continuaram a ter relativo sucesso no início da década de 90. Entre idas e vindas, a banda já não lançava material inédito desde 2009, com o bom "The Chair in the Doorway". Eis que, em 2017, surge "Shade", 6º álbum de estúdio deles, e que comprova que o som do Living Colour não se tornou nem um pouco datado, visto que aqui vamos encontrar todos os elementos que tornaram a banda mundialmente conhecida, e que, ao mesmo tempo, ainda soa moderno e contagiante.



"Primos" de som do Red Hot Chilli Peppers e do Faith no More, o Living Colour, ao contrário destes, continua, ainda nos dias de hoje, com uma regularidade muito bacana em sua música, mesmo depois de mais de 30 anos de carreira. Isso se deve a…