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Dica de Filme

"Nó na Garganta" (1997)
Direção: Neil Jordan.


O cinema é o tipo de arte que pode proporcionar os mais diversos sentimentos, e e´aí que está a sua beleza. Um pesado drama pode fazer rir, do mesmo jeito que uma comédia pastelão pode ter momentos extremamente tristes. Mesmo assim, em geral, os filmes possuem uma certa normalidade, ou até mesmo um carisma, que faça com que o espectador se identifique, de alguma maneira com os personagens, ou a história, em si. No caso de "Nó na Garganta", ele quebra muito desses paradigmas ao apresentar uma narrativa inusitada, com personagens de identificação quase nula, e apesar disso, consegue ser fascinante.

Não que a história não seja boa (ao contrário). É que ela, a cada minuto, provoca, inquieta, perturba, toma novos rumos e deixa quem assiste desconcertado. Em linhas gerais, poderíamos dizer que se trata das desventuras de Francie Brady, um típico garoto que vive no interior da Irlanda. Tem em Joe um grande parceiro e amigo, talvez, o único que terá em toda a sua vida, e é com ele que Francie divide suas opiniões e seus problemas pessoais (tudo pela ótica de uma criança, claro). Para completar, os pais do garoto possuem seus próprios desajustes: a mãe é depressiva e o pai, alcoólatra. Diante de tudo isso, Francie só tem uma saída: a sua incrível imaginação.




Sé que essa imaginação inclui, acima de tudo, uma enorme inadequação à sociedade em que vive. As senhoras que frequentam o mercado onde Francie faz compras sempre o tratam como uma "figura" ou como um mero "coitadinho", não fazendo o mínimo de esforço para compreendê-lo. Ainda há na cidade a Sra. Nugent e seu filho almofadinha, que vivem estigmatizando Francie e seus pais como a escória da cidade, e por quem o garoto para a nutrir cada vez mais desavenças e um ódio interno que, uma hora, pode explodir.

Falando em explosões, o roteiro ainda arruma tempo para falar de assuntos delicados como a guerra, só que de maneira bem peculiar. Estamos nos anos 60, e o perigo comunista ronda o "mundo civilizado". As pessoas da cidade só sabem de algo através das notícias de rádio, que são distorcidas, colocando os comunistas como autênticos monstros. No decorrer do tempo, o único que passa a contestar essa visão maniqueísta é Francie, claro. Por sinal, é especialmente fantástica a analogia que a narrativa faz disso com filmes de alienígenas da época, que tinha uma implícita mensagem anti-comunista.




Sim, mas, não para por aí. Além de falar das relações de amizade, da inadequação social, da guerra e de conflitos familiares, ainda há um espaço considerável na trama para se abordar a religião, mais precisamente o fanatismo religioso. Um fanatismo que permite que tenhamos tanto padres com desvio de caráter, quanto uma população inteira que preza pela hipocrisia, que se mostra "santa" ante a possibilidade da "vinda" de Nossa Senhora durante festejos do local. E, tal hipocrisia, evidentemente, é contestada mais uma vez por Francie.

Na realidade, a história de "Nó na Garganta" parece mais vários filmes em um só; e nenhum se atropela. Todos esses temas difíceis são abordados de um jeito envolvente e interessante, sem nunca cansar o espectador. Bom lembrar que direção e roteiro são do irlandês Neil Jordan, o mesmo que fez "Entrevista com o Vampiro", e que aqui faz, sem dúvida, o seu melhor trabalho. Isso porque o que temos é uma produção que, mesmo baseada num livro (escrito por Patrick McCabe), consegue ser autoral o bastante para tornar a obra algo único.





Além da direção, "Nó na Garganta" tem outros ótimos predicados. Mesmo os personagens não tendo um pingo de carisma (aonde até o protagonista é capaz de coisas terríveis), o elenco se sai muito bem, entregando personagens livres de qualquer julgamento moral simplório. É a vida exposta, principalmente, no que ela tem de pior. Alguns poucos e bem colocados efeitos especiais deixam tudo ainda mais inusitado aos olhos (vide a explosão do lago e a destruição da cidade). E, tudo é embalado por uma trilha sonora de época muito bem sacada.

Inclassificável, diferente ou apenas muito estranho? Sim, e mais um pouco. Este é aquele tipo de filme que não cabe em adjetivos fáceis. Não mesmo. Seu início, com dois meninos, aparentemente, inocentes, brincando de índios, é enganoso. No decorrer da produção, o espectador vai presenciar um emaranhado de acontecimentos, mensagens, significados e cenas fortes. Sem dúvida, não é um filme de simples digestão. Mas, também, não pode ser considerado ruim, mesmo pra quem queira classificá-lo assim. Certo mesmo é que ninguém sai indiferente ao assistí-lo.


Nota: 9,5/10.

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