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Dica de Filme

"Videodrome"
Direção: David Cronenberg


Os fãs do cinema de Cronenberg já estão habituados ao seu estilo pouco ortodoxo, e um  tanto bizarro. Portanto, pra quem já está habituado aos seus filmes, sabe que um de seus temas prediletos é a anomalia, a doença em si, que pode ser tanto física, como psicológica, atingindo tanto uma pessoa específica, quanto toda uma coletividade. Obviamente que a doença nos filmes do cineasta canadense é uma metáfora, que aqui pode ser facilmente identificada como uma crítica à alienação provocada pelos meios de comunicação, em especial, a TV.

E, como quase sempre acontece nas produções do diretor, em "Videodrome", não temos heróis, mas, também não há vilões típicos. O que encaramos em cada personagem do filme é a mais pura vilania do ser humano, a incontrolável ação do homem em, sem escrúpulos, conseguir algo em troca do prazer, geralmente, sexual, mesmo que isso implique na degradação alheia. É, em linhas gerais, o que pensa Max Renn, dono de uma pequena emissora de TV a cabo. Dia após dia, ele procura novas atrações para a sua grade de programação, geralmente, algo que apele bastante para o sexo e a violência, que ele vê como mera diversão, algo que chega a ser excitante.




Quando um de seus contatos capta imagens que parecem vindas de uma transmissão clandestina, Max vislumbra uma mina de ouro. Aparentemente, ele descobriu um programa chamado "Videodrome", provavelmente, produzido em outro país, em que pessoas são mostradas sendo torturadas e mortas. No entanto, com o passar do tempo, ele descobre que aquele programa é bem mais do que aparenta. Envolvendo-se numa estranha rede de acontecimentos grotescos, Max vai descobrindo que o seu mórbido desejo pelo sofrimento humano pode ser mais canalizado na vida real do que imagina.

O material pode ser simples e até um tanto surreal, mas, Cronenberg, também autor do roteiro, conduz tudo com maestria. Em nenhum momento, simpatizamos com alguém como Max Renn, mas, entendemos, ao longo do filme, o seu divertimento bizarro como uma doença, e que, metaforicamente, atinge o espectador com um sub-texto eficaz (até nos dias de hoje): a nossa crescente desumanização com um consumo cada vez maior de violência, e a nossa consequente esterilização ante a necessidade de mais e mais pornografia. Só pra lembrar: estamos falando de um filme da década de 80, e se torna ainda mais assustador se fomos comparar a TV de "Videodrome" com as redes sociais de hoje.




Contudo, não esperem uma espécie de "demonização" da mídia. Cronenberg não culpa, necessariamente, a tecnologia pela nossa crônica insensibilidade dos dias atuais, mas sim, o nosso desejo inato por coisas que deveríamos repudiar. Pode ser a TV, o rádio ou o computador, que servem apenas como meios para a nossa doentia predileção ao horror. Os personagens de "Videodrome" estão numa inércia sempre maior, precisando novas (e, mais violentas) reações para se sentirem vivos e até humanos novamente. Não basta assistir a uma pessoa sendo torturada, ela precisa ser morta, de preferência, com requintes de crueldade. A analogia com o tempo presente é assustadora, mas, necessária, o que faz do filme um importante documento de nossa incontrolável desumanização.

Cabe dizer que os atores estão impecáveis em seus papéis, com destaque absoluto para um James Woods ainda jovem, porém, muito competente ao passar toda a ambiguidade de seu personagem. E, estamos falando dos anos 80. E, de Cronenberg, diga-se. Portanto, esperem cenas imensamente repulsivas, mas, incrivelmente, nunca apelativas. Mesmo a violência gráfica ter o seu grau de incômodo (até nos dias de hoje), ela é perfeitamente crível com a trama, sendo necessária para expôr o alto nível alucinógeno ao qual o protagonista é exposto. O que prova que Cronenberg sempre foi mestre em compor cenas, ao mesmo tempo, repulsivas, mas, metaforicamente, impactantes, como poucos cineastas ousam fazer.




"Videodrome" continua, mais de 30 anos depois, sendo cinema underground de ótima qualidade, fazendo os questionamentos certos, e ainda construindo uma trama envolvente, com personagens interessantes, mesmo sem serem cativantes sob nenhum aspecto. E, até o final, o filme reserva aquela boa dubiedade entre o que é realidade e o que é ficção, fazendo o espectador refletir atrás de uma resposta. Que, talvez, não chegue. Contudo, faz com que ele pense, mesmo que por apenas uma hora e meia, a respeito do que é nocivo, mas, consumido como entretenimento de massa.


Nota: 8,5/10


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