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Dica de Filme

"O Castelo Animado" (2004)
Direção: Hayao Miyazaki


Nos últimos anos, as animações vem perdendo um pouco de sua encanto natural. No ocidente, em especial, os mais sensíveis desenhos animados feitos recentemente foram "Wall-e" e "Up - Altas Aventuras". O restante se concentra em produções que mesclam desde o pieguismo barato às  sátiras de cunho humorístico, tipo "Shrek". As animações atuais, portanto, estão mais preocupadas em serem "cínicas" do que passarem algo de verdadeiramente relevante para as crianças (em tese, o seu público alvo). Por isso mesmo o cinema de Miyazaki, além de formidável em vários aspectos, é importante. Nitidamente, ele fazia filmes para crianças, que, eventualmente, emocionavam também o público adulto.

"O castelo Animado" pode não se igualar aos maiores clássicos do diretor, como "Princesa Mononoke" ou "A Viagem de Chihiro", mas, com certeza, é um de seus trabalhos mais bonitos. Bastou, pra isso, que se pegasse uma história simples de amor, e colocasse boas metáforas nos momentos certos. De início, acompanhamos a vida de Sophie, uma jovem que trabalha numa loja que confecciona chapéus. O mundo em que ela vive é um lugar mágico, aonde as nações são repletas de bruxos e outros seres fantásticos. Um dos mais conhecidos na região aonde Sophie mora é o mago Hauru, que reside num castelo que "anda", e, segundo as lendas, devora os corações das lindas jovens por quem se apaixona.




Sophie, simplesmente, ignora tais histórias. Na realidade, ela também ignora as festas patrióticas que a cidade faz, em homenagem ao reinado que governa o país. Tenho uma vida bem mundana e alheia ao que acontece ao seu redor, um dia, Sophie é enfeitiçada por uma bruxa muito conhecida na região, Arachi, e que, segundo dizem, é apaixonada pelo mago Hauru. Após ser amaldiçoada, Sophie tem o corpo totalmente envelhecido, e, sem saber o que fazer, parte em busca nas terras mais altas, onde os magos mais poderosos habitam, e que, talvez, possam ajudá-la. Não demora muito, e é o castelo andante de Hauru que a "encontra". A partir daí, sua percepção das coisas começa a mudar completamente, a ponto de demonstrar sentimentos que nunca havia exposto antes.

O bem estruturado roteiro é uma mescla de boas reflexões a respeito de diversos assuntos. O mais claro, logo no início, trata da questão da velhice e as limitações que ela traz. Só que o espírito de Sophie continua jovem, e mesmo com as dificuldades de um corpo físico debilitado, sua força de vontade se sobressai, fazendo ela executar tarefas, aparentemente, impossível para alguém de idade avançada. O respeito aos mais velhos e a consciência que eles têm também são colocados de uma maneira muito orgânica na história, sem ficar com cara de "lição de moral". Num determinado momento, uma Sophie idosa fala: "Na minha idade, nada deveria me surpreender mais".




No sub-texto do roteiro, há elementos mais explícitos, como a crítica às guerras. Na histórias, várias nações estão em conflito, e, por isso, convocam diversos bruxos para ajudar nos combates. Esse tema não chega a tomar grande projeção na tela, o que é uma pena, pois, as cenas das batalhas são espetaculares, e o sentimento anti-belicista de Sophie e Hauru poderiam ter sido melhor explorado. Mesmo assim, não deixa de ser incrível que uma animação fale sobre a guerra de uma maneira mais adulta e crível do que muitas produções "sérias" por aí. E, mesmo assim, "O Castelo Animado" continua sendo uma produção, em essência, infantil. Não é à toa que Miyazaki é considerado um mestre do gênero.

Mas, as grandes batalhas dos personagens são mesmo internas. A grande luta num lugar que vive uma guerra intensa, com um reinado autoritário, é pelo direito à liberdade. Hauru, por exemplo, que à princípio não quer auxiliar nos combates, decide ajudar por conta própria que vê o perigo iminente que Sophie corre. E, mesmo assim, precisa lutar contra os seus próprios demônios internos e um segredo que guarda a repeito de seu coração (literalmente), e que fez dele um covarde até conhecer Sophie. Falando assim, parece até que a história é demasiadamente sentimentalista, mas, não é. As emoções pelas quais os personagens passam são genuínas, autênticas, sem cair nos lugares comuns das animações mais triviais.




Em termos técnicos, "O Castelo Animado" é um show visual. Em se tratando de Miyazaki, não deixa de ser meio óbvio, porém, sempre é preciso ressaltar o cuidado que os Estúdios Ghibli têm em suas produções, privilegiando uma animação mais tradicional, e inserindo algum efeito computadorizado mais elaborado só quando é preciso. As cenas, por exemplo, que envolvem, o castelo andante são um deslumbre. Porém, nem tudo são flores. O roteiro, às vezes, peca por algumas ações absurdas dos personagens, aquela típica situação em que se faz tudo errado para a ação acontecer. São falhas pontuais, mas, que, por isso, mesmo poderiam ter sido evitadas.

E, aqui temos, pra "variar", mais um grande trabalho deste simpático senhor chamado Hayao Miyazaki. Não chega a ter o mesmo poder e carisma de muitas das animações anteriores do diretor, mas, ainda assim, consegue estar bem acima da média do que é feito atualmente no estilo. Um exemplo claro de que não é preciso subestimar a capacidade de entendimento das crianças, mas, ao mesmo tempo, não é necessário tanta acidez nos desenhos. Uma criança é inteligente (às vezes, até mais do que muito adultos por aí), e Miyazaki sempre soube tratá-las com o devido respeito. Obrigado (mais uma vez), mestre!


Nota: 8,5/10

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