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Dica de Filme

"Snowden"
Direção: Oliver Stone


O cinema panfletário é uma faca de dois gumes: tanto pode dar certo, e servir como uma crítica genuína ao que está errado na sociedade, quanto pode soar oportunista por parte de seus realizadores. Oportunismo, no entanto, não pode ser uma acusação a um cineasta como Oliver Stone. Desde a sua "estreia" na sétima arte, com o roteiro de "Expresso da Meia-Noite", que já se vislumbrava ali uma mente inquieta e muito preocupada em usar seu conhecimento como forma de denúncia. E, esse espírito voraz o perseguiu quando ele foi para a cadeira de diretor, em obras seminais, como "Platoon" e "Assassinos por Natureza". Mais recentemente, ele fez um documentário sobre a Venezuela ("Ao Sul da Fronteira"), mostrando que muito do que "sabemos" daquele país é na base da desinformação. Ou seja, pode-se acusar Stone de tudo, menos, de oportunista barato.

Dito isto, é bom ressaltar que o filme "Snowden" (mesmo que essa informação já venha no início da produção), é uma dramatização de eventos reais. Portanto, não estranhem certos pieguismos presentes na trama ou certas forçadas de barra. Mesmo que pudessem ter sido evitados, esses artifícios foram escolha de seu realizador, com aval do personagem principal da história na vida real, o próprio Edward Snowden. O que vale aqui é a importância da história a ser contada, sua relevância no cenário político mundial e a necessidade e urgência do debate a respeito dos limites entre liberdade e segurança. E, nesses pontos, a produção é ótima.




Só que estamos falando de cinema também, e não um documentário puro e simples. Então, o que o roteiro nos oferece é contar a incrível história de seu protagonista de uma maneira que intercalasse acontecimentos passados e presentes. Acompanhamos, de início, Snowden se encontrando com uma dupla de jornalistas em Hong Kong, e se dirigindo a um apartamento, aonde começa a relatar a sua história. Corta para a época em que ele está servindo no exército e, devido a complicações de saúde, é dispensado. É nesse momento que decide entrar para a CIA, com um ar um tanto ingênuo, mas, natural, do americano médio, cujo patriotismo sem contestação está acima de qualquer coisa. E, é nesse trabalho, que Snowden, aos poucos, vai descobrindo o quão nefasto é o Serviço de Inteligência Norte-Americano, que não só vigia a tudo e a todos, mas, também é responsável direto pela morte de muitos; tudo tendo como "desculpa" o perigo do terrorismo.

Uma das melhores coisas do roteiro é intercalar o "momento atual", quando Snowden está no apartamento, denunciando o que viu aos jornalistas, com situações de seu passado recente, desde a relação com seus professores na CIA, a empatia com alguns amigos que faz ao longo do caminho, e seu conturbado relacionamento amoroso, que sofre as consequências por ele estar cada vez mais depressivo, passando a sofrer de epilepsia, devido ao stress no trabalho. Talvez, os momentos mais "água com açúcar" com sua companheira sejam um tanto bobos demais, porém, acabam servindo de maneira positiva para humanizar o personagem, fazendo-o criar uma certa ponte com a realidade, onde o mesmo passa a contestar mais os métodos do governo dos EUA, e tendo, claro, alguém a quem ama, e que precisa proteger.




Outro ponto deveras positivo na trama é como tudo é explicado, às vezes, com um certo excesso de diálogos, mas, importantes para que compreendamos até aonde chega a "rede de informações" que o serviço de inteligência norte-americano possui, sendo determinante até para a queda de certos líderes em seus respectivos países, como foi o caso da tentativa de golpe contra Hugo Chávez, na Venezuela. Chega a ser assustador como até mesmo uma simples câmera no notebook ou um mero chip de celular sejam suficientes para que os seus dados sejam catalogados, e, a depender de suas ações, você podendo ser um alvo em potencial. Nesse aspecto, o trabalho de Oliver Stone como diretor é um primor, tecnicamente, envolvendo o espectador em informações complexas, mas, de uma maneira simples.

Pelo filme conter tantos sub-textos e tantas informações necessárias (passadas em pouco mais de duas horas de duração), os atores não têm grandes espaços para arroubos em suas interpretações, mas, convencem. Joseph Gordon-Levitt é o próprio Snowden em pessoa, adquirindo, sem afetações, os seus trejeitos e formas de falar. Outro bom destaque é a Shailene Woodley, como a namorada de Snowden, Lindsay Mills. Longe de fazer o papel de "donzela em perigo", ela mostra força e, questionando o comportamento de seu companheiro o todo, acaba sendo um dos grandes incentivos dele ter feito as denúncias que fez. O restante do elenco não compromete, e temos até um Nicolas Cage mais contido do que de costume, o que é muito bom.




Mas, a produção É MESMO de Edward Snowden, o original, e isso se mostra evidente nos minutos finais da película, que pecam por mostrar o rapaz de uma maneira romantizada demais. Nesse sentido, só as informações sobre a vida dele, num fundo preto, como a maioria das cine-biografias fazem, já teria sido de bom tamanho. Mesmo assim, "Snowden", o filme, é cinema bem-feito, redondo, com o cuidado de quem sabe a preciosidade do material que está tratando. É panfletário? É ideológico? É, sim, e não há problema nenhum nisso, já que até o cinema pipoca é impregnado de ideologia. E, este aqui, mesmo algumas poucas vezes, apelando para soluções fáceis, convida ao debate e à reflexão, o que, nesses tempos, já está de bom tamanho.


Nota: 8/10

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