Pular para o conteúdo principal
Dica de Filme

"Invasão Zumbi" (2016)
Direção: Yeon Sang-ho


"Filmes de nicho" são um complicados, pois, além do público ser pouco exigente quanto a eles, os próprios realizadores não se esforçam muito em saírem dos lugares-comuns. Peguemos as produções de zumbis, por exemplo. Quantas, nos últimos anos, ficaram acima da média e tentaram mostrar alguma novidade, por menor que fosse? A memória, agora, só me faz recordar do espanhol "[Rec]", e só. O resto é o de sempre: carnificina, luta plea sobrevivência, e mais carnificina. Todos os filmes de zumbi, é verdade, têm um teor político, por mais sutil que seja, mas, a grande maioria é, simplesmente, muito mal feita. E, é por isso que "Invasão Zumbi" chega como uma estrondosa surpresa.

Primeiro, não esperem que essa produção sul-coreana traga algo de inovador. O fio narrativo que a conduz, por sinal, é bastante simples: uma orda de zumbis começa a atacar pessoas desavisadas num trem bala que está indo para a cidade de Busan. Antes da "invasão zumbi"  (título nacional muito "criativo", pra não dizer o contrário), somos apresentados aqueles que serão os grandes protagonistas da história: Seok-Woo e sua filha Soo-An. Sem alarde, e com parcimônia, os dez primeiros minutos de filme servem para que possamos ver a relação conflituosa desses dois; um, sendo um pai ausente, mais preocupado com o trabalho do que com a família, e a outra, uma menina muito inteligente, mas, carente de afeto do pai.




O bom de tudo é que o roteiro (muito inteligente) não se foca somente em Seok-Woo e Soo-An, mas, sim, em outros personagens tão cativantes quanto, e com personalidade tão próprias, que você se importa realmente com o destino deles, algo não muito corriqueiro nos filmes de terror atuais, em que os personagens principais só servem para morrer de maneira violenta. Mesmo que em "Invasão Zumbi" todos pareçam personagens um tanto triviais, a trama consegue dar humanidade suficiente a eles para que torçamos por todos (ou, quase todos). Um dos coadjuvantes aqui que merece destaque, sem dúvida, é Sang-Hwa, que, aparentemente, serve como alívio cômico na história, mas, que, aos poucos, vai ganhando uma importância considerável.


E, como todo bom filme de zumbo que presta a se tornar um clássico instantâneo, o sub-texto político de "Invasão Zumbi" é muito bem alicerçado. No começo, não sabemos de nada sobre a epidemia que transformas as pessoas em mortos-vivos, para depois, entendermos de quem se trata a culpa, e o dedo na ferida num mundo cada vez mais liberal é considerável. A figura do Estado também aparece de forma dantesca, e não à toa, os zumbis são chamados pelas autoridades de "manifestantes", e perdem à população o velho clichê de manterem a calma. Mas, as provocações na história do filme não param por aí. Dentro do trem para Busan está, justamente, uma megaempresário que personifica toda a causa do inferno pelo qual os personagens estão passando. Pode soar meio maniqueísta, porém, a construção do personagem é tão bem-feita que esse artifício um pouco simplista passa batido.




Outra coisa interessante que se nota no filme é a sua incrível capacidade de intercalar uma ação quase que ininterrupta com momentos dramáticos ou de crítica social. Cada um desses elementos isoladamente são ótimos dentro do filme, mas, a superposição deles é feita de maneira tão orgânica que simplesmente não não piscamos durante a sua duração de quase duas horas. A cada minuto há algo de interessante passando na tela, de maneira bem elaborada, criativa e espontânea. Claro, deve ter ajudado muito o fato do diretor de "Invasão Zumbi" ser oriundo das animações japonesas, que, em muitos aspectos, supera os tradicionais desenhos hollywoodianos.

Talvez choque aos mais desavisados a forma cruel como o destino de alguns personagens é apresentada, o que, pra quem já conhece o cinema sul-coreano, não é novidade nenhuma. Levando ao pé da letra o conceito de tragédia grega, os filmes de lá não têm pudor em fazer seus personagens sofrerem dores irreparáveis, contanto que isso seja crível para a história que está sendo contada. Isso também dá um tom mais realista aqui, contrastando com a maioria das produções mainstream norte-americanas, aonde todos, milagrosamente, salvam-se no final. Inclusive, lembrem-se de que "Invasão Zumbi" se passa na Coreia do Sul, portanto, não há uma arma de fogo a cada dois metros à disposição dos personagens, não. Para enfrentar os mortos-vivos, usam qualquer coisa que estiver à mão, o que acaba deixando tudo mais tenso.




Não há como deixar de parabenizar também o estupendo trabalho de todo o elenco, que está muito bem. Kim Soo-Ahn, que interpreta a menina, é um verdadeiro achado. Ela atua melhor do que muitos adultos "consagrados" por aí. Já, Gong Yoo, que faz o pai dela, também está igualmente brilhante, passando ora, muita indiferença e cinismo, ora muita angústia e desespero, sem nunca parecer caricato. Por sinal, pra quem tem um pé atrás quanto às interpretações em produções orientais, pode descansar aqui. Nenhuma é forçada ou passa dos limites, o que ajuda muito a dar verossimilhança à trama e às suas situações de pura catarse. E, é nessa catarse, num crescendo de emoções, que o filme vai ganhando força até, no final, deixar o espectador "exausto".

A cada dia, "Invasão Zumbi" vai ganhando o status merecido de grande filme. Tanto é que está começando a ficar sacal dizer que a produção é o melhor filme de terror de 2016, e o melhor filme de zumbi deste século. Parece até exagero, mas, o filme sul-coreano realmente é completo dentro do "cinema de nicho" ao qual pertence, e ainda extrapola essa barreira, ao investir em algo bastante universal: o drama humano diante do desconhecido, e a ganância, o egoísmo e a estupidez tomando conta das pessoas nos momentos mais difíceis. Que outro blockbuster atual iria tão longe ao fazer uma análise tão afiada a respeito de uma sociedade que está, cada vez mais, canibalizando-se, e se transformando em autênticos zumbis? E, quem diria que um filme desse gênero pudesse ensinar tanto? Precisa-se dizer algo mais?


Nota: 9,5/10


Comentários

  1. Haha,segui a dica e amei esse DRAMA ZUMBI, diferenciado. Um filme de suspense/terror e drama são as sensações que passa.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Debate Sócio-Político
Porto Digital Ocupado!
O número de ocupações contra a PEC 55 (que propõe, entre outras coisas, uma profunda reforma no Ensino Médio) cresce a cada dia, e apesar de algumas dificuldades, a maioria mostra que está no caminho certo. No Recife, a mais recente instituição a ser ocupada foi a Escola em Referência de Ensino Médio (o EREM), pertencente ao Porto Digital, e localizada no bairro do Recife Antigo. Tudo começou durante a manhã de quinta (17), após as aulas serem suspensas para a realização de uma assembleia. A decisão pela ocupação do prédio foi feita como forma de antecipar o pior, já que muitos temiam que a direção da escola chamasse a polícia. 
De acordo com uma das integrantes do movimento, a organização do local está sendo feita aos poucos, para que, em breve, possam acontecer eventos, como palestras, exibição de produções audiovisuais, etc. "Ainda está tudo muito recente. Pretendemos, primeiro, limpar e reformar algumas coisas aqui dentro, para depo…
Lista

10 Melhores Discos Nacionais de 2017 (Até Agora)


Sim, meus caros, não está nada fácil. Achar os "10 melhores discos nacionais lançados em 2017 (ate agora)" demandou bastante tempo, mesmo porque, até no meio do cenário indie, anda rolando uma certa mesmice em termos de sons e atitudes, com bandas soando rigorosamente iguais umas as outras. Está faltando identidade e carisma até na nossa música alternativa, infelizmente. Mas, lamentações à parte, esta é uma pequena lista que se propõe a ser um guia atual para quem deseja saber o que anda acontecendo de bom por aí. 
Torcer, agora, para que os próximos meses sejam mais produtivos no sentido de termos mais lançamentos bons como estes.
🎵


10°
"Feeexta"
Camarones Orquestra Guitarrística


"Canções Para Depois do Ódio"
Marcelo Yuka


"Triinca" Triinca

"Galanga Livre" Rincon Sapiência

"Vênus" Tupimasala
Dica Cultural

Festival MIMO 2016
Programação Olinda


MIMO significa Mostra Internacional de Música em Olinda. E, também resistência de arte da melhor qualidade. Nasceu em 2004, na cidade pernambucana que leva seu nome, e que hoje é patrimônio histórico da humanidade. O que não significa que o festival não ocorra em outros lugares, como vem acontecendo há alguns anos. Este ano, por exemplo, em sua 13ª edição, a MIMO já desembarcou em Portugal, e nas cidades brasileiras de Ouro Preto, Tiradentes, Paraty e, nos próximos dias, no Rio de Janeiro. E, claro, haverá espaço para sua cidade natal, Olinda, que irá abarcar inúmeras atrações de peso entre os dias 18 e 20 de novembro próximos.
A seguir, a programação completa da MIMO em Olinda.


CONCERTOS

18 Novembro / Sexta-Feira

Zeca Baleiro - Violoncelo e Piano
18h - Mosteiro de São Bento / Palco Se Ligaê

João Fênix
19h - Igreja do Carmo

João Bosco & Hamilton d Holanda
19h30 - Mosteiro de São Bento / Palco Se Ligaê

Mário Laginha & Pedro Burmes…