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Dica de Filme

"Kubo e as Cordas Mágicas" (2016)
Direção: Travis Knight


Apesar de termos tido muitas animações elogiadas em 2016 (como os superestimados "Zootopia" e "Anomalisa"), o ano que passou não foi tão bom assim nesse quesito. Na realidade, o que tivemos foram várias produções pretensiosas, que, por não terem uma condução bem-feita, ou apelaram demais para clichês, ou simplesmente ficaram no meio do caminho. "Kubo e as Cordas Mágicas", ao contrário, mostrou ser a grande animação de 2016 por causa de um diferencial bem básico: a história é simples, mas, é bem contada e cativa a todos, sem carregar demais no melodrama.

Outro ponto a favor do filme é a sua estupenda animação em stop motion, que de tão bem elborada, nem parece stop motion. Os cenários, a ação, o design dos personagens, enfim, tudo foi feito por gente que, notadamente, gosta desse tipo de animação, e o resultado é nada menos do que deslumbrante. E, o roteiro, em si, não tem nada de novo, mas, prende a atenção, e reserva até algumas surpresas no decorrer da trama, o que é sempre bem-vindo. A história, é bom ressaltar, tem nuances que merecem uma atenção maior, como o fato do poder de Kubo ser o de dar vida a objetos inanimados, exatamente como o stop motion faz, num exercício muito criativo de metalinguagem.




O enredo conta a história do menino do título, que morando com sua mãe numa aldeia, usa de poderes mágicos para entreter a população local, ao mesmo tempo que precisa cuidar de sua mãe, traumatizada por eventos de seu passado. É quando os espíritos de suas tias e de seu avó voltam para atormentar a sua vida, que Kubo precisará entender o que aconteceu no passado, em especial, ao seu pai, e deter essa ameaça que paira sobre a cidade e a si próprio. Parte, então, em busca de uma armadura que lhe dará poder para enfrentar seu avó de igual para igual.

Sim, o roteiro é um pouco esquemático, e meio que já sabemos o que vai acontecer no final, mas, nem por isso, a produção perde o seu interesse, muito menos, o seu encanto. Apostando numa aventura aos moldes clássicos, mas, com algumas mensagens críticas (e, até de grande profundidade) espelhadas ao longo da narrativa, "Kubo e as Cordas Mágicas" tem cada um dos seus elementos bem dosados, nenhum se sobrepondo ao outro, fazendo tudo o que se espera nesse tipo de produção, só que sem inventar demais, e ainda sendo um tanto ousado em momentos pontuais.




Por sinal, o clima da animação aqui está mais para os Estúdios Ghibli do que para as produções da Disney. Há andamentos bem lentos e contemplativos na história, lembrando um pouco as melhores produções de Miyazaki, inclusive, no trato respeitoso à questão da natureza. Obviamente, há momentos de humor ao longo do filme, mas, eles não são forçados e fazem rir mais como uma forma de descontração para amenizar todo o drama que a trama possui, e não para forçar a piada acontecer, mal do qual padeceu (e, MUITO) o insosso "Zootopia".

Os personagens são todos cativantes, do protagonista que dá título à obra, passando por uma macaca que passa a ajudar Kubo em sua jornada, e até um samurai amaldiçoado na forma de um besouro (o grande alívio cômico do desenho). Até os vilões brilham bastante, com destaque para as tias de Kubo (bem macabras e sendo protagonistas de cenas de ação de dar inveja à muita superprodução por aí), além do grande antagonista da história, o avó do pequeno herói, que só aparece no final, e realmente amedronta.




Sem apelar para soluções mirabolantes, nem querer ser pretensioso ao falar do que não tem propriedade, "Kubo e as Cordas Mágicas" é uma animação bastante bonita, que, eventualmente, flerta com assuntos bem adultos e maduros, além, é claro, de prestar homenagens muito interessantes à cultura japonesa. É o tipo de filme que crianças gostarão mais pelos personagens e pela ação, e os adultos, mais pela história e pelas intenções das mensagens. Nada de extraordinário, é verdade, mas, trata-se de algo realizado com tanto esmero, contado de uma maneira tão singela, que a coloca no pódio da grande animação de 2016.


Nota: 8,5/10


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