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Dica de Filme

"The Devil's Candy"
2017
Direção: Sean Byrne


TERROR SATÂNICO TEM DESENVOLVIMENTO PROMISSOR, MAS, DERRAPA NUM DESFECHO GENÉRICO

Fazer filmes de terror está cada vez mais difícil, não necessariamente porque faltem boas ideias, mas, porque falte coragem para os seus realizadores causarem um grande impacto no público, sem precisar serem apelativos (bons tempos aqueles de "O Bebê de Rosemary" e "O Exorcista", não?). Mas, voltando aos tempos atuais, é muito bacana ver novos cineastas tentando fazer algo de novo, mesmo que o resultado, no final das contas, fique aquém de suas possibilidades. É o caso, por exemplo, deste "The Devil's Candy", cujo diretor Sean Byrne já havia chocado meio mundo com o inquietante "Entes Queridos", em 2009, quando ainda residia na Austrália. "The Devil's Candy" é, portanto, sua primeira incursão no mercado norte-americano (e, a bem da verdade, poderia ter se saído bem melhor).




A história começa com um sequência um tanto estranha: Ray, um homem com claros problemas mentais, está em seu quarto, tocando uma guitarra no mais alto volume, ao mesmo tempos em que ouve vozes aterrorizantes em sua cabeça (segundo ele, a guitarra consegue "abafar" a voz do diabo). Numa briga com a sua mãe, ele a joga da escada, e o pai dele, ao chegar e ver aquela cena, aparentemente, tem um ataque e morre. Corta para algum tempo depois, quando conhecemos Jesse, sua esposa Astrid e a filha do casal Zooey. Uma peculiaridade, e que será importante para a trama, é que Jesse, além de pintor é verdadeiramente alucinado em rock pesado, gosto herdado para a sua filha Zooey. É quando se mudam para a casa que foi de Ray e seus pais que coisas estranhas começam a acontecer.

Uma coisa muito importante: não esperem grandes desenvolvimentos psicológicos tanto dos personagens, quanto da trama em si. É tudo muito direto, rápido e objetivo. Em poucos minutos, já vislumbramos como a história vai mais ou menos seguir no decorrer de sua quase um hora e meia de duração. E, isso é muito bom, pois, evita momentos arrastados demais, e que tiram a tensão e o clima de um filme desses. Mesmo que os personagens não tenham um tempo excessivo para serem desenvolvidos de maneira aprofundada, o que é mostrado aqui é mais do que suficiente para que criemos empatia com eles. Coisas básicas pai e filha estarem ouvindo "Killing Inside" (da banda Cavalera Conspiracy,) no carro, e Astrid se mostrar "desconfortável" com o som pesado, e todos rirem na cena, já cria um clima agradavelmente familiar, e que nos faz simpatizar com eles.





A estética pestilenta e agoniante que o diretor Sean Byrne impõe em cada flame também é muito bem feita. Driblando certas limitações técnicas, dá pra perceber o quanto o cineasta é inventivo nos ângulos de cena e nos closes, deixando a ambientação do filme carregada, aterrorizante (é como se "algo" estivesse a espreita o tempo todo, mas, sem se materializar)Incrivelmente, a parte gore nem é tão chocante e desconfortável assim, com o filme primando mais pela tensão gerada nos momentos de maior horror. Óbvio que, até pela concepção do roteiro, a trilha sonora é outro destaque positivo, com nomes um tanto manjados do heavy metal, como Slayer e Metallica, mas, ainda assim, bastante empolgante. Cabe, por fim, destacar o elenco, em especial, Ethan Embry, que interpreta Jesse, e Kiara Glasco, que dá vida a Zooey, ambos muito competentes em seus respectivos papéis.

Mas, como nada é perfeito, é preciso se destacar o maior erro de "The Devil's Candy", e que, ironicamente, é onde estão inseridos os seus maiores acertos, que é o roteiro. Pelo fato do filme ser demasiadamente curto, algumas situações e personagens ficam mal explicados ou simplesmente mal resolvidos na trama. É o caso, por exemplo, do diretor da galeria de arte que vai visitar Jesse, e que possui um ar muito suspeito e demoníaco, o que poderia indicar algo de misterioso nele. Porém, o personagem só aparece uma única vez, para não voltar mais. Há de se destacar também o fato de Jesse, assim como Ray, também ouvir vozes aterradoras, mas, isso não ser devidamente desenvolvido ao longo da narrativa, apesar de gerar algumas cenas tenebrosas, principalmente, quando ele pinta um quadro enquanto escuta essa voz. Porém, o principal defeito mesmo está no desfecho da produção, muito genérico para algo que se desenhava terminar de forma mais impactante. Não é, em certo aspecto, ruim, mas, denota uma grande preguiça na conclusão do roteiro.




Ao final, temos apenas um bom filme de terror, que até assusta e possui alguns aspectos interessantes, mas, que perdeu a oportunidade de se destacar no cenário atual por causa de um detalhe tão bobo quanto terminar a história de maneira tão "padronizada". Para quem quiser uma produção do gênero verdadeiramente impactante e imprevisível, o filme anterior de Byrne, "Entes Queridos", é bem melhor resolvido nesse aspecto. Mesmo assim, devido à criatividade geral de sua realização, "The Devil's Candy" consegue estar num nível acima dessas produções de terror mais hollywoodianas, e, consequentemente, mais clichês.




Nota: 7/10


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