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DICA DE FILME

"INCÊNDIOS" (2010)




O filme "Incêndios" pode ser considerado um longa de emoções moderadas. No decorrer de suas duas horas de duração, temas pesados são abordados, mas, mas as catarses não são gratuitas, nem meramente ornamentais. Elas têm um motivo de existirem, sendo o que, de fato, move a trama. Prova disso é que ele começa lento, contemplativo, mostrando um menino tendo o cabelo raspado, provavelmente por guerrilheiros de um país em conflito. A cena seguinte mostra um tabelião entregando o  testamento de uma mulher aos seus filhos gêmeos, que são um casal. O pedido da mãe deles ao tabelião foi de que eles recebessem duas cartas que deveriam ser entregues ao pai e ao irmão deles, que nunca chegaram a saber que existia. O pai, nunca conheceram.De imediato,é ela quem sai em busca do paradeiro dos dois. Ele, relutante, só se envolverá nisso posteriormente.

A trama, em si, a princípio, pouco importa. O interessante é ver como ela vai se desdobrando, ora mostrando a procura desesperada dos gêmeos por alguma informação, ora expondo um pouco do passado da mãe deles, desde quando ficou grávida pela primeira vez até sua morte, passando pelo seu engajamento político, tanto como colaboradora de um jornal local, como se transformando numa guerrilheira. São essas passagens que, pouco a pouco, vão dando pistas para solucionar o enigma que os gêmeos tanto buscam.




Por sinal, o viés político é muito forte nessa produção, mostrando, inclusive, como isso afetou a visão de mundo da mãe dos gêmeos. Antes, uma ativista das mais comprometidas, passa a ter simplesmente um sentimento de vingança por todo os sistema, principalmente depois que desistiu de procurar seu filho que teve de dar para adoção assim quem ele nasceu. Ela o julga já morto pela guerra civil entre muçulmanos e cristãos que assola o país. Tais questões não soam forçadas. O diretor Dennis Villeneuve usou a guerra mais como pano de fundo, para mostrar como seus efeitos podem simplesmente destruir a vida de muitas pessoas. Não é levantada nenhuma bandeira partidária ou religiosa; apenas destinos marcados pelos piores horrores.





"Incêndios" só perde um pouco de ritmo quando os gêmeos estão próximos de encontrar as revelações envolvendo seus pais e seu irmão desaparecido. Mas, essa "quebra" dura muito pouco, e logo o filme se recupera. A sensação final é de tristeza e impotência diante de situações com as quais não se têm controle. As cartas são abertas e a verdade é mostrada. A mãe deles pôde, enfim, ter uma lápide com seu nome inscrito: NAWAL MARWAN.




Um filme praticamente impecável, contando uma estória densa (mas, não apelativa), tendo um desenrolar coeso, sem subestimar o espectador.Em suma, uma bela produção.

"Meu sepultamento deve ser sem caixão, nua e sem orações. O rosto virado para o solo, de costas para o mundo. Lápide e epitáfio: não haverá lápide na minha sepultura, nem meu nome será gravado. Não há epitáfio para aquele que não cumpriu sua promessa".
(NAWAL MARWAN)


NOTA: 9,5/10.

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