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DICA DE FILME

"DANÇANDO NO ESCURO" (2000)




Após uma estréia um tanto quanto medíocre com "Os Idiotas", Von Trier realizaria um filme magnífico, "Dançando no Escuro". Ele serviu como uma espécie de prelúdio para o que viria a ser a obra-prima do diretor, "Dogville", além de ser uma produção que, mesmo com alguns convencionalismos, está acima da média de coisas pedantes ou pretensiosas que Von Trier faria anos depois, como "Melancolia" ou "Ninfomaníaca".

Interessante notar que em "Dançando no Escuro", há um contraponto entre um cinema experimental (resquícios do movimento Dogma 95) e algo mais elaborado. Isso se percebe quando são mostradas cenas do cotidiano dos personagens de maneira quase documental e as sequências musicais possuem um refinado apuro técnico.




A estória em si, apesar de tradicional em alguns momentos, é extremamente bem contada, tocante, humana e bonita. Fala de Selma Jezková, que, vinda da Checoslováquia, instala-se nos EUA e vive com o filho num trailer alugado. Trabalhando numa fábrica, ainda tem tempo, durante à noite, para participar dos ensaios de uma peça de teatro. Tendo como paixão os grandes musicais de Hollywood, ela sonha com eles sempre que a vida lhe impõe situações desfavoráveis. Uma delas é o fato de que Selma está ficando gradativamente cega devido a uma doença hereditária. Por isso, junta todo o dinheiro que pode para fazer operação para o filho, que irá logo desenvolver a mesma enfermidade.

O longa, ao contrário do que possa transparecer, não apela para o melodrama. O que encontramos aqui é o mais puro sofrimento humano, talvez só equiparado em termos de cinema recente ao filme "21 Gramas". Ao mesmo tempo, também se encontra em "Dançando no Escuro" uma bela ode á esperança, muito bem acentuada no final da produção. E, ainda há algumas boas metáforas, como qual seria a verdadeira cegueira, já que Selma diz num determinado instante que não se importa de ficar cega, pois já viu de tudo (de coisas boas a ruins), e não pretende querer ver mais.




Desnecessário dizer que a atuação de Björk no papel principal está esplêndida. Sua persona estranha e inusitada combinou perfeitamente com o papel de Selma. Von Trier também mostra que, quando não quer criar polêmicas nem cair na auto-indulgência, consegue resultados brilhantes. Tanto o roteiro quanto sua filmagem foram bem desenvolvidos, e, em muitos casos, fugindo do óbvio.

Não é propriamente um filme "fácil" de se assistir, porém, incrivelmente, é o mais agradável que Von Trier fez até hoje. O desconforto é íntimo, mas, naturalmente humano, e não estético. As lágrimas, inevitavelmente, virão. Os sentimentos de revolta e impotência, idem. E, nada é forçado ou desproposital. Infelizmente, nos últimos anos, o diretor dinamarquês se esqueceu disso, achando ser o maior mestre da sétima arte atual, onde seus recentes filmes servem mais como exercícios da sua vaidade. Ainda bem que, ao menos, ele deixou como legado "Dogville e este "Dançando no Escuro".


NOTA: 9,5/10.

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