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DICA DE FILME

"STALKER" (1979)




Cinema é diversão, entretenimento. E, de fato, nunca deixou de ser. Mas, de vez em quando, também pode ser um valoroso meio para refletir sobre assuntos aparentemente simples de uma forma um pouco mais complexa. Muitos, no entanto, fogem disso como o Diabo da cruz por considerarem um filme com essas características "difícil" demais. "Stalker", do russo Andrei Tarkovski, mesmo gerando muita reflexão, não é difícil, apesar de ter cenas lentas demais para os atuais padrões do cinema comercial.

Um engano recorrente é colocar "Stalker" no rol das ficções científicas. Ele se mostra bem mais que isso. A estória trata de um lugar chamado A Zona, que é onde um meteorito caiu a mais de 20 anos. Depois que várias pessoas desapareceram no local, o governo cercou sua área e impede que qualquer um se aproxime. Nisso, surgem os stalkers, guias clandestinos que levam as pessoas até lá, pois acredita-se que A Zona possui poderes especiais.




Uma das primeiras cenas ilustra bem o que Tarkovski quer nos mostrar com este trabalho: numa cama, estão deitados um casal e sua filha. De repente, um trem passa, cujo o som se funde ao de uma marcha militar. Indo e voltando, a câmera mostra o momento que o casal acorda, como se o som do trem preconizasse algo; alguma esperança, alguma promessa de felicidade. Daí em diante, temos várias sequências, algumas bem longas, onde este homem encontra outros dois, chamados apenas de Professor e Escritor. Juntos, partem para a Zona.

O homem que os acompanha é, como não poderia deixar de ser, um stalker. Essa, por sinal, é uma expressão inglesa que significa "o espreitador" ou "aquele que se esgueira". Essa denominação virá bem a calhar, principalmente na segunda parte do filme, na qual ele apenas observa os inúmeros embates entre o Professor e o Escritor, e não raro, coloca-os à prova frente a armadilhas espalhadas pela Zona. Por sinal, são esses mesmos embates que proporcionam os melhores diálogos do filme, como quando um questiona o outro se estaria ali para ganhar o prêmio Nobel, enquanto um fala que quer apenas saber se tem algo que o diferencia do resto da humanidade.




Os questionamentos são constantes. O que a Zona proporciona verdadeiramente às pessoas? Seria a arte uma forma de altruísmo, ou apenas uma maneira de externar o que incomoda? Até que ponto as pessoas iriam contra aquilo que julgam seus princípios para realizarem seus desejos? Não à toa, á época, o próprio Tarkovski disse que o tema principal de "Stalker" é a fé, deixando a ficção científica em segundo plano. Mas, não é apenas fé; é a busca pelos conceitos mais básicos de liberdade e de felicidade.

Nesse quesito é até perdoável o lentíssimo desenrolar do filme, pois essas inquietações vão surgindo nos personagens o tempo todo, e nisso a câmera faz questão de mostrar a dúvida e o medo nas expressões nos rostos de cada um. É um longa, pois, sensorial. O trio de protagonistas vão com a ideia pré-concebida de que a Zona é o melhor lugar do mundo, e isso é bem posto na produção, já que as cenas antes de entrarem no local são em preto e branco, e, depois, ficam em cores. Só que, como o passar do tempo, a Zona vai se mostrando como apenas mais um lugar no mundo; seu ambiente apenas pode revelar o que, realmente, as pessoas que chegam ali são..




Os atores principais (Anatoli Solonitsin, Nikolai Grimko e Alexander Kaidanovski) conseguem passar toda a dramaticidade das situações de forma excelente. Além disso, os planos-sequência são magníficos, fazendo ótimos contrastes entre a desolação da cidade e o silêncio bucólico da Zona. Tarkovski, no entanto, poderia ter feito um trabalho mais enxuto, com o corte de algumas cenas desnecessárias. Isso, com certeza, não tiraria a força da mensagem, e deixaria o longa ainda melhor.

"Stalker", contudo, continua sendo um ótimo filme. Desafiador em todos os aspectos, consegue ir além de meras divagações filosóficas, e nos faz ter questionamentos tão genuínos quanto inquietantes. A arte pode, sim, ser bem mais do que entretimento. Basta encontrar o catalisador certo das ideias que realmente importam.




NOTA: 9/10.

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