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DICA DE SÉRIE

"BEAKING BAD" (2008-2013)




Hype é uma expressão inglesa usada para designar algo muito estimado ou valorizado, mas que não corresponde às expectativas. Na cultura pop (seja no cinema, na literatura ou na TV), os exemplos recentes são muitos, desde o disco "Randon Access Memories", do Daft Punk, até os filmes "O Som ao Redor" e "Argo", todos de qualidade inferior se comparado a todo o estardalhaço que causaram. No caso da série televisiva "Breaking Bad", ela não chega a ser ruim, porém, mostrou-se bem aquém do esperado.

A bem da verdade, ela tem um péssimo início, como muito estilo e pouco conteúdo. São sequências e diálogos que seriam muito bem colocados num filme de Tarantino, por exemplo, mas que aqui soa apenas como vergonha alheia. Diretores e roteiristas que passaram pela série conseguem domar esses ímpetos no decorrer dela, mas esses excessos acabam minando bastante o potencial do material.




A estória em si é intrigante e poderia ter dado margem a mais debates e interpretações do que gerou na prática. Tanto é que a coisa foi resumida ao limitado maniqueísmo bem x mal. O enredo fala sobre um professor de química (Walter White), que, descobrindo ter câncer em estágio avançado passa a tentar fazer uma reavaliação de sua vida. O insight vem com a profissão de seu cunhado (Hank), que trabalha na narcóticos. E, então (bingo!), Walter decide usar seus conhecimentos para fabricar a anfetamina mais pura que puder. Para ajudá-lo, recruta Jack Pinkeman, ex-aluno seu e usuário de drogas.

O que mais incomoda em "Breaking Bad" é a sequência quase infinita de coincidências que os roteiros nos oferecem. Tudo bem que elas serviram para dar mais tensão à trama, mas, ao mesmo tempo, foram pretexto para os personagens cometerem bobagens incríveis, que até um leigo não cometeria. (SPOILER) Por exemplo: é inadmissível Hank, num dos episódios, ter achado o carro de Pinkeman na casa de um grande traficante, e não fazer óbvias analogias. Com grande facilidade, ele descobria que quem está fabricando a droga mais usada do momento é o seu próprio cunhado!




Outra coincidência absurda é quando Walter deixa uma jovem morrer de overdose, e seu pai, com imensa depressão depois disso, e trabalhando como controlador de voo, comete uma falha, fazendo um avião explodir no ar, cujos destroços caem (adivinhem aonde?) na residência de Walter! É compreensível querer mostrar que pequenos atos reverberam em coisas maiores, mas, ter bom senso também ajuda. Haja teoria do caos!

Falando assim, parece que "Breaking Bad" só tem defeitos. Porém, não. Existem muitas qualidades nela, principalmente a partir da terceira temporada, onde os acontecimentos começam a ficar mais sérios. Quando a série foca num lado mais humano dos personagens, isso ajuda numa identificação maior com o espectador. Mesmo com o estilo de vida duvidoso que escolheu seguir, Walter tem um amor incondicional pelos filhos, e é sempre comovente ver isso. O próprio Jesse é tratado como filho por ele, o que fica mais claro no último episódio.




Também há algumas boas provocações no roteiro, como retratar a hipocrisia social da cidade diante de uma comoção forçada devido ao acidente de avião já mencionado. E, até mesmo as (muitas vezes) desnecessárias cenas estilosas, quando bem colocadas, rendem bons momentos, como a explosão no asilo que mata o traficante Gus.

Só que o que mais pesa contra, por incrível que pareça, é o que está fora da série: seus ardorosos fãs. São eles que espalharam coisas sobre "Breaking Bad", que, friamente, não se concretizaram. Por exemplo, citaram muito o fato de Walter ser uma pessoa pacata, do bem, e com o passar do tempo, virar uma pessoa má. Já, como Jesse, disseram que ele começava ruim e terminava como o herói da série. Bem longe disso, diga-se!




Walter nunca foi necessariamente bom, e mesmo nas situações mais difíceis, também não se mostrou como o vilão supremo. Tanto é que, enquanto ele pode polpar a vida de várias pessoas, ele o fez. E, Jesse sempre se mostrou uma ótima pessoa; apenas atrapalhado e sem rumo, mas jamais alguém que pudéssemos tachar de mau. Portanto, isso acabou reduzindo demais algo que poderia ter sido um bom argumento para explorar as ações que nos levam a mudar nossa personalidade e fazermos coisas das quais duvidávamos até pouco tempo. Essa era a proposta inicial do criador da série, Vince Gilligan, mas, o resultado poderia ter ido bem mais a fundo.

O saldo disso tudo? Um tanto positivo, é verdade. Mesmo com todos os defeitos, "Breaking Bad" é uma agradável produção de se assistir. Ao menos, saiu do lugar comum de outras séries recentes que exploram o filão do sobrenatural ou dos super-heróis. Trata-se de um hype bem feito, mas nem um pouco excepcional. Portanto, fica o conselho: em época de vacas magras no quesito criatividade, o ideal é ver para crer.




NOTA: 7,5/10. 

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