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DEBATE SÓCIO-POLÍTICO

NAS URNAS, EM NOME DE JESUS




Nos últimos dias, a presidente e candidata à reeleição Dilma Roussef está escancarando uma das piores tendências políticas recentes: a bajulação às comunidades evangélicas para o ganho de votos. Não que outros candidatos já não tivessem feito isso antes; inclusive, José Serra executa essa artimanha com frequência. Mas, Dilma tem mostrado (e não deixa de ser até positivo, pois sendo mais exposto, fica mais passível de críticas) que, pelo visto, não se vence mais uma eleição sem o apoio dos religiosos (em especial, os da ala neopentecostal).

Mas, afinal, por que os evangélicos influenciam tanto na política se o Brasil, em tese, é um país laico?


Dilma Roussef e Edir Macedo, durante inauguração do Templo de Salomãpo, megaempreendimento da Igreja Universal


Comecemos desmistificando um tabu: a palavra laico. Muita gente pensa que ser laico é ser ateu. Nada mais enganoso. Seu significado nada mais é do que aquilo que não pertence ou não está sujeito a uma religião ou não é influenciado por ela. Ou seja, o Brasil sendo uma nação laica não estaria sujeito à influência do catolicismo, do budismo, do judaísmo, etc. E, nenhuma dessas religiões pode determinar o que deve e o que não deve, principalmente, no tocante às leis.

No entanto, não é isso que vemos, na prática. Existe, por exemplo, a chamada Bancada Evangélica no Congresso, onde muitos políticos, com tendências muitas vezes conservadoras, impedem o andamento de certas leis que vão de encontro às suas doutrinas, como a adoção de crianças por casais homoafetivos e a interrupção da gravidez em casos de estupro. Em contrapartida,  tentam criar outras em benefício próprio, como a "Lei do Pai Nosso", implantada em Ilhéus, na Bahia, no ano de 2011, que obrigava as crianças de todas as escolas públicas a rezar tal oração.


A Bancada Evangélica no Congresso transformando um espaço político numa igreja


Não à toa, os evangélicos estão adquirindo tanto poder político e de influência na vida política em geral. De acordo com o IBGE, já são mais de 42,2 milhões em todo o país, num crescimento de mais de 60% entre os anos de 2000 e 2010. Com um contingente de eleitores tão alto, seria óbvio, que candidatos das mais diversas frentes os cortejassem, visando o ganho de qualquer eleição.

Porém, segundo reportagem do site O Globo deste ano, não somente a classe política, mas os próprios líderes evangélicos têm feito a sua parte na corrida eleitoral aos fiéis. Pastores, como Silas Malafaia, R. R. Soares, Valdomiro Santiago, Edir Macedo e Manoel Ferreira vêm se articulando cada vez com mais força para aumentar o número de integrantes da Bancada Evangélica, e apoiar (ou repudiar) certos candidatos. Nesse sentido, não deixa de ser interessante que haja até discordância entre eles, pois, ao mesmo tempo que Edir Macedo apoia Dilma Roussef, Silas Malafaia a critica. Evidentemente, as causas de ambos estão longe de serem nobres.


Jean Wyllys x Feliciano: quando a religião interfere na política, a polarização e limitação das ideias é inevitável


E, por falar em Malafaia, cabe aqui algumas informações pertinentes. Um dos mais notórios nessa corrida política para doutrinar seus fiéis, ele é líder da Igreja Vitória em Cristo, que tem 120 templos e 40 mil membros, e ainda é presidente do Conselho dos Pastores do Brasil, que possui cerca de 10 mil pastores. Para se ter uma ideia, ele apoiará este ano pelo menos 500 pré-candidatos a deputados federal e estadual. No Rio, Malafaia também pedirá votos para o senador Lindbergh Farias (PT), pré-candidato ao governo. O interessante nessa história é que o petista vem frequentado os cultos da Igreja Vitória em Cristo há muito tempo, tendo inclusive a Procuradoria Regional Eleitoral do Rio proposto ação contra Lindbergh e Silas Malafaia por propaganda eleitoral antecipada.

Mas, essa influência toda dos evangélicos na política seria prejudicial para o país? De acordo com o reverendo Carlos Eduardo Calvani, da Igreja Anglicana no Brasil, sim. Ele escreveu um artigo em 2013, onde disse que "os evangélicos têm um projeto político muito perigoso. Utilizam as Escrituras Sagradas do modo como lhes convém, para interferir na Comissão de Direitos Humanos, para propor ou alterar leis e infringir descaradamente as cláusulas pétreas da Constituição Federal."


Um pouco de informação do que uma igreja pode e não pode em tempos eleitorais


E, de fato, gradativamente, todos os poderes vêm se curvando aos evangélicos. Em 2012 o então Secretário Geral da República Gilberto Carvalho pediu desculpas às comunidades evangélicas devido a declarações feitas por ele em relação ao poder de influência que elas possuem nos meios de comunicação. Vários projetos, principalmente, aqueles que beneficiariam casais homoafetivos e as mulheres, também já foram engavetados graças às pressões cada vez maiores da Bancada Evangélica. E, alguns de seus membros têm conseguido cargos do governo por pura obrigação de acordos, como Marcelo Crivela, que se tornou Ministro da Pesca, e Marco Feliciano, subindo ao posto de Presidente da Comissão de Direitos Humanos.

São coisas criticadas até mesmo por alguns conhecidos religiosos. Além do já citado reverendo Calvani, Frei Betto, recentemente, alertou para o crescimento desenfreado da influência dos evangélicos na política: "Precisamos abrir o olho porque está sendo chocado no Brasil o poder fundamentalista de confessionalização da política. Isso vai dar no fascismo.” Ele ainda ressaltou que "o Estado e os partidos não devem ter religião, mas respeitar a diversidade do pluralismo religioso."


Quadro da revista Carta Capital do ano passado dando conta dos projetos da Bancada Evangélica


Ainda há o fato de que a referida Bancada Evangélica é uma das mais ausentes e menos representaivas do Congresso. Através do Portal da Transparência é possível obter informações de que, por exemplo, 95% da referida bancada estão entre os mais faltosos, ou de que todos os seus deputados respondem a processos judiciais. Inclusive, os nomes deles estão lá, com a informação tanto do partido, como da igreja ao qual fazem parte.

Só que é bom lembrar que o embrião de toda essa tendência não é de agora. Foi a partir da década de 80 que o movimento neopentecostal começou a crescer no Brasil, junto com seus primeiros representantes políticos. De lá pra cá, o poder aquisitivo de uma certa parcela da população cresceu, e com ele, seu poder de influência. A ascensão da chamada classe média é um bom exemplo disso. Só que essa parte da população vem junto com uma carga religiosa e conservadora muito forte, e, como agora, estão num patamar onde exigem sempre mais, o perigo de um fundamentalismo é latente, não só dentro da política, mas na sociedade como um todo.


Uma realidade a ser mudada


Não é preciso fazer um grande esforço para comprovar isso. Basta ver que recentes discursos ganharam força, do tipo "bandido bom é bandido morto", "estamos numa ditadura de gays" ou "na Ditadura Militar era melhor". Depois, convém olhar quais as linhas ideológicas dessas pessoas. No topo, facilmente encontraremos gente como Malafaia, Feliciano ou Bolsonaro. Logo abaixo da pirâmide, um sem-número de religiosos (em sua maioria, evangélicos) que corroboram com as ideias e discursos desses chamados "defensores da moral e dos bons costumes".

O fato de um estado ser laico não é por acaso. Existe um princípio para tal. Pois, a partir do momento em que um segmento religioso controla decisões políticas, toda a população está à mercê de uma única doutrina, que nem sempre é a adequado ou, simplesmente, a melhor. Por isso, o laicismo é importante: para a pluralidade e para o debate diverso. Sem intolerância. Sem preconceito. Apenas, com bons argumentos.


ERICK SILVA
(12/08/2014)

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