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DICA DE FILME

"COVA RASA" (1994)




Danny Boyle é um arquiteto do cinema. Seus filmes se assemelham a colagens muito bem unidas, num conjunto que não têm nada de aleatório. Geralmente, eles possuem estórias simples, mas que se desenrolam com muita criatividade e sem lugares-comuns. O ápice dessa inventividade foi, sem dúvida, o polêmico "Transpotting - Sem Limites", que falava abertamente, e sem preconceitos, do uso das drogas. Anos antes, porém, em sua estréia com "Cova Rasa", Boyle já mostrava bastante talento.

O filme começa acelerado, e sem concessões, somos apresentados ao trio de personagens principais: Alex, David e Juliet. Eles procuram alguém a quem possam dividir seu apartamento, e, no meio de entrevistas que fazem com inúmeras pessoas, um é escolhido para ficar: Hugo. Só que este, poucos dias depois, aparece morto por overdose num dos quartos, com uma mala cheia de dinheiro ao lado. O que os amigos irão fazer a partir de então colocará em evidência o egoísmo, a ganância e a violência que, até então, desconheciam neles.




Um dos pontos fortes do longa é o seu ritmo. Mesmo sendo um filme curto, com cerca de uma hora e meia, nenhuma cena é desperdiçada, e todas fluem naturalmente. Mesmo com pouco tempo, cada personagem mostra um caráter distinto: enquanto Alex é tão descontraído quanto Juliet, David se mostra mais sombrio e retraído, sempre preocupado com o destino dado ao dinheiro que agora lhes pertence, e incomodado com a possibilidade dos prováveis donos da quantia virem buscá-la.

É envolvendo David, inclusive, que "Cova Rasa" nos presenteia com suas melhores cenas, onde ele vai ficando cada vez mais perturbado e isolado de seus amigos. Nisso, o trabalho do ator Christopher Eccleston (o elfo negro Malekith, de "Thor - O Mundo Sombrio") é muito competente, dando carisma e ares de tragédia ao seu papel. Os outros protagonistas (Kerry Fox e Ewan McGregor) também se saem muito bem, não fazendo dos seus personagens meras vítimas ou heróis. Na realidade, o que temos aqui, e de maneira crível, são pessoas sem praticamente virtude alguma, e, por isso mesmo, bastante humanos.




Outro ponto a se destacar é a trilha sonora do longa, um cuidado já característico dos trabalhos de Boyle ao longo de sua carreira. A cargo do músico e compositor Simon Boswell, ela mescla elementos de eletrônico com música clássica, o que deixa algumas sequências ainda mais interessantes. Por fim, o roteiro, simples, mas honesto, cumpre bem a sua função de expor os erros de pessoas comuns postas em situações-limite, onde a cobiça ou, simplesmente a sobrevivência, falam mais alto.

"Cova Rasa", mesmo não sendo a obra-prima do seu diretor, é uma produção que, de alguma maneira, sintetiza bem o seu estilo, só que de forma menos lapidada. Apesar disso, trata-se de um pequeno grande filme; um começo promissor para um cineasta que iria revelar, dentro em breve, todo o seu potencial para um público ainda maior.





NOTA: 8,5/10. 

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