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DICA DE FILME

"PAISAGEM NA NEBLINA" (1988)




A conivência tem sido um grande mal nessas últimas gerações. Não perceber o que está a sua volta virou regra. Podem ser as coisas mais terríveis, poucos pararão para olhar e oferecer alguma ajuda. Preferem ignorar, fazendo várias pessoas e situações se tornarem invisíveis.

E, não há nada mais invisível do que o silêncio. É ele o mote de "Paisagem na Nebilna", filme do diretor grego Théo Angelopoulos, que fez outras duas produções em que o silêncio é visto de diversas formas. Se nas anteriores, a mudez era da História e do Amor, neste aqui quem se cala é Deus.

Mas, claro, não necessariamente o Deus que as religiões pregam. Por ser considerada uma entidade onipresente, em "Paisagem na Neblina", Ele pode ser a representação das próprias pessoas. São elas que ignoram os irmãos Voula e Alexandros, que, por conta e risco, partem sozinhos em busca de seu pai, que nunca viram e acham que está na Alemanha.




Nesse percurso, vão encontrar uma sociedade corroída e insensível. Numa cena, por exemplo, eles veem um cavalo à beira da morte, na rua, e começam a chorar por ele. Imediatamente, um grupo sai de um casamento e passa pelas crianças cantando e dançando sem notarem a triste cena.

As sequências possuem grande impacto visual, passando a mensagem que se quer de forma bastante eficiente. Angelopoulos não utiliza metáforas difíceis; tudo é muito bem assimilado. A questão é que "Paisagem na Neblina" é um filme triste, em essência, e podem existir muitos que se incomodem com isso.

Some-se o fato da produção ser extremamente lenta. Porém, nada tem de pedante. Inclusive, a contemplação de algumas cenas é uma de suas virtudes. Angelopoulos usa numerosas sequências sem cortes, em planos abertos. Mas. longe de serem um mero enfeite, são parte integrante da narrativa.




Numa dessas sequências, atores decadentes de teatro estão numa praia. Enquanto a câmera gira e registra suas ações, muitos falam um pouco de suas vidas. Eis que o dono do teatro chega e diz que alugou o espaço para outro grupo. Desolados, caminham em direção ao mar. Tudo num único take, e sem perder o ritmo.

Tania Palaiologou e Michalis Zeke estão maravilhosos nos papéis principais. Conseguem passar uma inocência pura, ao mesmo tempo que são obrigados a amadurecerem à força. Stratos Giorgioglou, que faz Orestis, um dos atores do grupo teatral, também está excelente. Por sinal, esse é o único personagem, fora as crianças Voula e Alexandros, que possui alguma espécie de sensibilidade com o mundo que está à sua volta.




A própria direção de Angelopoulos é sutil e delicada. Passa todo o desconforto e revolta frente a uma sociedade afundada na lama, mas evita ser apelativo. Ele constrói um filme que se propõe a debater e não simplesmente chocar. E, o faz de maneira soberba.

Mas, não se enganem. Mesmo com um enredo triste e cheio de significados que expõem nossa culpa pelas coisas mais terríveis, "Paisagem na Neblina" é uma produção em que, ao final, a fé e a esperança ficam soberanas. Não se trata de pieguismo, mas da necessidade de continuemos a seguir em busca dos nossos objetivos, assim como Voula e Alexandros, que buscam um pai que não conhecem.




As crianças talvez tenham a resposta. Bem mais do que nós, que fechamos os olhos e ficamos em silêncio. Assim como Deus.


NOTA: 9,5/10.

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