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DICA DE FILME

"TERRA EM TRANSE" (1967)




Grito!

Em tempos difíceis, temos a necessidade de gritar, extravasar um sentimento contido, preso, num misto de angústia e consciência. São essas sensações que movem o filme "Terra em Transe".

Estamos em pleno regime da Ditadura Militar. Liberdades sendo tolhidas. críticos sendo perseguidos. Um país, enfim, em transe...

Glauber Rocha, um inconformado por natureza, sentiu tudo isso. Sua mente, inquieta, trabalhava mais do que nunca num modo de denunciar isso. Foi então que decidiu fazer um filme alegórico, que expressasse a situação do Brasil naquele momento.

Os personagens e os nomes dos lugares em "Terra em Transe" são fictícios, mas qualquer semelhança com a realidade NÃO foi mera coincidência.




Estamos em Eldorado, uma nação qualquer da América do Sul. Nela, vamos conhecer o senador Porfírio Diaz, que detesta o povo, e acha todos um bando de miseráveis. Nisso, pretende ser imperador do local, porém, vai encontrar muita resitência de outros políticos que também querem o poder absoluto em Eldorado.

Surge a figura do jornalista e poeta Paulo Martins, apadrinhado de Porfírio, e que acessora a campanha de um candidato populista (Felipe Vieira) ao cargo de governador de Alecrim (um dos estados de Eldorado). O embate será inevitável, pois ambos os políticos são de partidos opostos, mas nenhum se mostra bom administrador.




No meio desse fogo cruzado, Paulo viverá o seu inferno. Enquanto se mostra contra às pretenções megalomaníacas de Porfírio, também demostra insatisfação com os rumos do governo de Vieira, que cogita até repressão policial contra manifestantes ao seu governo.

Glauber constrói uma forte parábola política, onde temos de tudo: joguetes com multinacionais para financiamento de campanhas, uso da mídia para difamar o adversário, o perigo do populismo nesse meio, a utilização do cunho religioso para ganhar as massas...




São coisas mostradas de forma intensa, sob a ótica de um desiludido Paulo, que já não vê mais motivos para lutar por um bem maior, deixando-se levar como marionete a serviço de interesses pessoais dos políticos que, no fundo, repudia.

As cenas são fortes, daquelas que deixam os mais sensíveis com uma sensação desagradável de opressão. Em um determinado momento, vemos um pobre coitado dizendo que ele "é povo! Eu sou o povo! Eu, que tenho sete filhos e não tenho onde morar!", para depois ser linchado por partidários de Vieira, que, aos berros, bradam: "Extremista!"

Por sinal, essa parece ser a mensagem central de Glauber Rocha em "Terra em Transe": que é preciso uma tomada de consciência do povo, uma atitude dele mesmo a fim de ficar menos ignorante e mal-informado. E, ficando consciente, lutar, lutar, lutar... E, gritar! E, Glauber grita o tempo todo aqui.




O filme passa a sensação de ter vida própria, uma pulsação que salta às telas. Os monólogos poéticos de Paulo, a população alucinada com os discursos dos políticos, a angústia, a agonia, o sofimento. São duas horas de sentimentos à flor da pele. Não é um filme simples ou agradável.

As atuações (todas irretocáveis) seguem muito bem o padrão que o enredo lhes oferece. Os grandes destaques são Paulo Autran, que faz do seu Porfírio Diaz um ser alucinado com a ideia de poder, e Jardel Filho, que  encarna Paulo de maneira explêndida em sua inglória jornada, buscando redenção e conforto em meio a tanta barbaridade.

E, lógico que a Ditadura não deixou barato. A produção teve exibição proibida em todo o território nacional. Consideraram o filme subversivo demais, e, principalmente, irônico demais com a figura Igreja. Curiosamente, a produção foi liberada sob a condição de ser dado um nome ao padre interpretado por Jofre Soares, talvez para que se passasse a impressão de que a crítica era a um membro da Igreja, e não à instituição.

Paralelo a isso, o filme teve uma carreira internacional brilhante, ganhando importantes prêmios nos festivais de Cannes, Havana e Locarno. A produção ainda chegou a ser relançada no Brasil em 2005, provando, mais uma vez, sua relevância.




"Terra em Transe" é, para muitos, a obra-prima de Glauber, e, (por quê não?) do cinema brasileiro. Um filme em carne viva, que mostra nossas mazelas de forma crua. E, também é um poema, belo e intimista, expondo nossos profundos anseios.

A esperança, que à vezes, parece ter só um fio, é o suficiente para nos agarrarmos a ela, e continuarmos a lutar.. e, a gritar!


NOTA: 10/10. 

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